Kaedra Lima: Colorindo o futuro de lésbicas que mostram dia-a-dia lições especiais de empatia

Kaedra Lima (fotos de arquivo pessoal)

O sonho de todos nós LGBTQI+ é sempre ver matérias que nos tratem como seres humanos e nada mais. Que parem de nos enxergar fragilizados, mesmo que com olhares de quem nos apóia e luta por nós, que paremos de ver só notícias mostrando estatísticas de morte, de agressões, de discriminação...

Mas para que isso aconteça, ainda é preciso ter muita luta e ajuda ao próximo. Nós mesmos temos de nos reerguer, superar muita coisa e levantar quem anda conosco. É assim que vocês vão conhecer, hoje, a Nathália Kaedra Modesto Lima, de 24 anos, mais conhecida como Kaedra, que é fundadora do grupo Lésbicas Futuristas.

Apelidado com a sigla LF, o grupo nasceu no Tinder com o objetivo de unir minas lésbicas para troca de experiências, de sonhos e muita pegação. "Tudo começou comigo sozinha em casa. Eu morava com outras duas meninas, uma trans e uma lésbica, mas tínhamos estilos de vida muito diferentes, eu sentia falta de ter alguém pra compartilhar as coisas, e eu também sentia falta de coletivos voltados para nós, o único que conhecia era o Sapatour, mas que é formado por meninas mais padrãozinho, magrinhas, bonitinhas. Eu queria juntar mina trabalhadora de shopping, sabe?", explica Kaedra.

"Na época (pouco mais de um ano e meio atrás), eu usava o Tinder, pois ainda era solteira, aí criei um perfil para unir essas manas. A primeira a dar like foi a Quel, que está aí no grupo até hoje. Aí eu falei pra ela que tinha acabado de criar o grupo e só tinha ela e eu (risos)", completa. 


Hoje, você pode cruzar com o perfil do Lésbicas Futuristas, no Tinder, andando pelas ruas de toda essa São Paulo e região metropolitana para dar aquele like que na hora do match te direciona para o grupo no WhatsApp.

Com muita ajuda da Raquel Barsali, a Quel, que se tornou uma das administradoras do LF, o coletivo foi ganhando forma, mais meninas foram entrando e conhecendo a causa, até que, só no WhatsApp, mais de 100 lésbicas futuristas já entraram e ajudaram uma a outra.

"Até que eu criei o Instagram do LF e mais de mil minas já seguiram logo de cara". Tá esperando o que pra ir conhecer também? Segue a página lá, menina (@LFuturistas).

Parte das lésbicas futuristas comemorando um ano de grupo

Quem olha de fora nem imagina o quanto elas já lutaram uma pela outra. Kaedra relembra a fase em que estava saindo da casa que dividia com as outras meninas e que teve de ficar feito nômade, de casa em casa. "As minas jogavam minha comida fora, o apartamento ficava todo quebrado. Se queimava o chuveiro, ficava dias sem arrumar, porque ninguém dava dinheiro. Se acabava o gás, ficava meses sem gás, porque ninguém dava dinheiro, e era daí pra pior. Então, quando acaba o gás, eu ficava na casa da Raquel, quando acabava sei lá o que, eu ficava na casa da Buá. Fiquei muito tempo assim e todo mundo me ajudava muito", expõe.

Dentre inúmeras histórias de ajuda e superação, uma das garotas que estava no grupo tentou se suicidar, ficou hospitalizada e a mãe dela, que pegou o celular da garota em busca de amigos que pudessem ajudar, acabou achando o grupo no WhatsApp das Lésbicas Futuristas e, lendo as conversas, viu como é um coletivo de ajuda e mandou mensagem.

"Todo mundo se mobilizou para investigar o que estava acontecendo e foi quando descobrimos que a menina estava sendo abusada pelo tio dela, ou pelo pai dela, não sei direito, e depois disso ela tentou se matar. Foi aí que acolhemos a mãe dela, que era quem estava conversando com a gente e que precisava de nós tanto quanto a filha. Ela se recuperou, gravou um vídeo pra gente lá do hospital agradecendo todo o apoio que demos e isso foi incrível".

É muito importante o que as Lésbicas Futuristas fazem pela próxima, pois ninguém está sozinho nesse mundo e ter pessoas ao redor que têm a empatia e coragem de nos reerguer, mostra como há esperança na humanidade.


Kaedra reconhece que tudo isso é muito fundamental e que se elas conseguissem levar para fora do grupo o que fazem umas pelas outras, se existisse um LF em cada estado desse Brasil, a causa já estaria um passo à frente e a sociedade já seria um pouco melhor.

"É o que eu falo pras manas, que a empatia não deve rolar só dentro do nosso grupo, porque algumas delas acabam se ajudando só entre si e deixando de lado quem não é do grupo. Nós temos que ajudar a todos, porque só assim vamos ser vistas, vistos no geral LGBTQI+, como queremos ser vistos pelo mundo todo", ressalta a fundadora.

Saiba mais sobre Kaedra


Por trás de tanta luta e empoderamento, Kaedra Lima também passou pela fase de descobrimento, aceitação e libertação. Para ela, se aceitar foi o período mais difícil, pois quando chega a hora de contar para as pessoas, é sinal de libertação e essa é a melhor parte. 

"A parte mais difícil mesmo foi me aceitar, e não por questões da minha família, nem nada, porque ninguém era muito religioso. Mas a minha família tem um histórico de pessoas da minha idade que são bem problemáticas. Na época, eu tinha 13 anos e já sabia que era lésbica, mas enquanto isso eu tinha prima, da mesma idade, que estava grávida, meu irmão também estava preso, e eu só conseguia pensar que não seria mais uma filha hétero que teria um bom emprego, que teria filhos, família e coisas do tipo", diz.

Bruna e Kaedra

Claro que tudo isso é um processo interno muito foda e que a maioria dos LGBTQI+ já enfrentaram ou ainda vão enfrentar, mas não é por causa de sexualidade que ela deixou de formar família. Hoje, morando junto com Bruna Santos, outra mulher incrível que deixou suas raízes lá em Cuiabá, no Mato Grosso, para viver em São Paulo, as duas lideram o LF, enquanto ainda trabalham para cuidar da casa e de toda a luta social que é viver como um casal de mulheres.

E é por isso que São Paulo representa tudo para Kaedra. "Eu já morei fora de São Paulo e não recomendo. Morar num lugar calmo é legal, quando se tem 62 anos. Agora, um jovem, no auge dos seus 18 anos, morar num lugar que só tem duas baladas e sendo que uma delas é sertanejo (risos), não dá", porque, realmente, seria bem mais difícil para ela colocar esse projeto tão lindo no papel se não fosse em São Paulo, a cidade com mais diversidade de pessoas por metro quadrado.

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