Juliana Arv: As lutas diárias de se impor como mulher e lésbica na sociedade

Juliana Arv (foto de arquivo pessoal)

Quando olhamos para o passado e vemos relatos de gerações anteriores às nossas, enxergamos o quanto era perigoso ser LGBTQI+ na sociedade, não que agora estejamos seguros. Àquela época a sigla era até menor, se é que ela existia nos anos 50, 60, por exemplo, até 10 anos atrás muitos falavam apenas GLS (gays, lésbicas e simpatizantes).

Mas sabemos que somos muitos e vamos além de gays e lésbicas. Não é de hoje que bissexuais, transexuais, travestis, assexuais, pansexuais, intersexuais e quem se questiona existem. E por que é que nossa voz ainda não é ouvida? Por que é que não nos sentimos representados quando assistimos novelas, filmes, comerciais, reality shows?

Ainda falta muito para ganharmos o espaço que temos direito, e, enquanto lutamos, o À Paulista preparou uma série de matérias especiais para trazer muita representatividade e visibilidade LGBTQI+ durante todo o mês de junho.

A entrevistada de hoje é a empoderadíssima Juliana Arv, de 22 anos, que é youtuber, digital influencer e bem sapatão.



Totalmente descontraída e transmitindo boas energias, a Ju chegou no nosso local de encontro para a entrevista. Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, para ser mais exata. E foi ali, sentada no espaço de leitura kids, que ela começou relembrar a infância...

Uma das primeiras lembranças dela se descobrindo lésbica foi aos cinco anos de idade, quando frequentava a casa da tia-avó. No jardim da parente, tinham estátuas dos Sete Anões e da Branca de Neve e o sonho dela era crescer para poder alcançar a princesa. Depois disso, um pouco mais velha e fã da novela Rebelde (quem não era, né?), Juliana era apaixonada pela Roberta (quem não era também, né?).

"Foi nessa mesma época, que eu brincava com as minhas vizinhas, né? Eu beijei uma menina e minha vó viu. E aí ela me deu o maior sermão. A partir disso eu meio que tomei isso como errado, que não podia. Então eu fui reprimindo e reprimindo cada vez mais", conta a youtuber. Isso fez com que seu processo de autoaceitação fosse mais difícil.

Como nenhum desenvolvimento pessoal é simples, Juliana chegou a namorar um cara, durante um ano, no ensino médio. "E quando eu terminei, meio na loucura, eu decidi que queria curtir tudo o que não tinha curtido. Foi quando eu comecei a ficar com umas meninas e, meu, eu comecei a gostar, sabe?". Sim, Ju, eu sei bem como é hahaha.

Essa luta dela como pessoa já acontecia internamente há muito tempo, então depois que a libertação veio, não houve medo algum de fazer o que queria.



Mas, na vida real não é tão fácil assim, quando um problema se resolve, outros surgem. Como mulher e sapatão, duas minorias sociais que sofrem muito preconceito, Ju precisou escolher entre ser ela mesma ou o trabalho. Olha que situação mais bizarra, né?

Quando era recepcionista em uma academia, há dois anos já, a influenciadora fazia muito bem seu papel, e como fechava muitos planos, o dono do estabelecimento a convidou para ser gerente da segunda unidade que estava abrindo. Antes que isso acontecesse, o gestor descobriu que Juliana é lésbica.

"Ele chegou pra mim e falou que não ia ter recepcionista lésbica, que já evita contratar professor de musculação gay, porque os caras acham que vai ficar dando em cima. Disse que ninguém ia querer fechar plano comigo, que nenhuma mina ia querer se aproximar de mim, porque ia achar que eu ia dar em cima...", expõe ela, que ainda ouviu dele que de ela beijar mulher para colocar o nariz no pó (cheirar cocaína) era um passo. QUE ESCROTO DO CARALHO!

"E ele falou: 'eu vou te dar duas opções: ou você para com isso ou você pede suas contas'. E aí eu peguei e falei pra ele fazer minhas contas, porque eu não ia ficar lá. Eu não vou ficar num lugar onde eu não posso ser quem eu sou, sabe?".



Nessa de ser ela mesma ou fingir ser outra pessoa, Arv passou por outra prova de fogo. Se tratando de representatividade, qual lésbica nunca quis, por exemplo, assistir um 'De Férias Com a Ex Sapatão'? Fica aí a dica, MTV. Mas ainda temos essa lacuna para preencher e foi na mesma onda que a Ju recebeu o convite para participar de um reality show (que ela não expôs o nome). Para isso, ela só poderia participar se fosse bissexual, pois ficar com mulher, ok, mas teria de ficar com homens também. À época, ela, que hoje tem cerca de 186 mil seguidores, tinha pouco mais de 30 mil e falou para a produção do programa que mesmo que ela se passasse por bissexual, seu público já sabia que isso não é verdade.

Diante dessas perdas de oportunidades profissionais, Juliana Arv se mostrou forte e muito melhor do que qualquer tipo de opressão e padrão social.

É com esse tipo de pensamento evoluído, que ela concorda que as gerações anteriores às nossas já batalharam muito para termos o espaço que temos hoje. "Mas ainda faltam leis mais rigorosas para cada letra da sigla LGBTQI+. As pessoas vêem os LGBTs como uma coisa só, elas tratam as violências como uma coisa só. O preconceito que um homem gay sofre, não é o mesmo de uma mulher lésbica, ou de um cara trans. A gente tem que tratar especificamente cada caso, porque se você trata tudo como um todo, nunca vamos ter dados reais para tratar problemas reais, sempre vai ser uma coisa superficial".

"Mas, no geral, o pior mal que os LGBTQI+ sofrem é o risco de morte, e nós, mulheres, mais do que a morte, sofremos com o risco diário de estupro", completa.



Para ela, ainda é preciso ter mais representatividade para cada letra da sigla. "Dar mais espaço e voz pras pessoas que passam por isso é mostrar a elas que somos normais e que existimos na sociedade".

Enfrentando dia após dia os desafios de ser uma mulher lésbica na sociedade, Juliana Arv ainda consegue transmitir mensagens que levam autoconfiança para seu público também enfrentar as lutas diárias de viver como um grupo social minoritário. Semanalmente, ela abre, em seu Instagram (@JulianaArv), a caixa de perguntas - nomeada de ConversArv - para que seus seguidores mandem dúvidas sobre questões de aceitação, descoberta, relacionamento, etc. Assim, ela vê qual o assunto mais comentado na semana e grava um vídeo para seu canal no YouTube (Arv Maria) comentando e dando dicas.



Quem quiser seguir a influenciadora, pode se sentir totalmente à vontade, pois a Ju está completamente disposta a conversar com todos que integram ou não a sigla LGBTQI+. "Meu público é muito mais composto por mulheres lésbicas e bi, devido à representatividade, mas seja gay, trans e hétero, se quiser me acompanhar para desconstruir pensamentos e conhecer nosso universo, é só chegar".


O lado pessoal de Ju Arv


Ela, que também é gente como a gente, faz seus corres, dá seus rolês e falou sobre isso durante a entrevista.

Fã de Justin Bieber desde às antigas, para cada humor, Ju tem uma música do cantor para ouvir. "Ele não deixa de tocar no meu fone de ouvido. Ouço todo dia, desde as velhas até as atuais", afirma.

E é de rolê em rolê que a influencer afirma, com toda convicção, bem sapatona convicta hahaha, que seu tipo de rolê preferido é o Baile das Marinheiras, "porque é um rolê feito por minas lésbicas para minas lésbicas. A gente não vê muito isso por aí".

E se em uma dessas festas você tentar conquistá-la, fique sabendo que a ariana, que tem ascendente em libra, lua em aquário e vênus em áries também (vishhhh), costuma gostar mais de relações com librianas, justamente por serem mais equilibradas e estilosas, o que acaba anulando um pouco da intensidade de áries.

Mas se você for de câncer, mana, iiiiih, aí a Ju não costuma se dar muito bem. "Não tenho paciência pra manipulação, chantagem emocional, muito drama. Nossa, não dá". Claro que, para toda regra, existe uma exceção, não custa tentar, né?

O que não costuma, ou melhor, não costumava acontecer muito na vida da Ju, é o famoso rebuceteio. Ela disse que ficava um pouco incomodada quando isso rolava, pois ela tem o princípio de não ficar com ex de amigas que ainda tem um sentimento, mesmo depois disso, por respeito até. "Mas acontece, o universo lésbico é pequeno e o rebuceteio sempre vai rolar (risos)".

Como boa paulistana, Juliana Arv nunca morou em outro lugar que não fosse São Paulo e é também por isso que essa cidade representa tudo para ela. Seus lugares preferidos são a Praça Pôr do Sol e o Minhocão aos domingos, pois em um ela consegue ter a melhor vista de SP quando o sol parte, e em outro ela tem a liberdade de andar de long. Em ambos, Ju pode sentir a brisa bater e ficar, pelo menos um pouco, sem a sensação de que tem muita luta social ainda pela frente.

9 comentários:

  1. Que matéria foda! Muito bom ler conteúdos assim

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  2. Como pode esse comentário sobre colocar o nariz no pó? Homem é tudo babaca mesmo né?

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  3. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA eu sou fã da Juliana

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  4. Peeeeeeeeeerfeita dona do meu cu

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  5. Eu sou fã da Arv1. Amo demais,de verdade. Amei a matéria. Que venham mais assim. Parabéns!!!!

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  6. Que matéria fodaa, que assunto essencial pra sociedade, e que perfeito escolher a Ju pra essa representação !!

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  7. Que matéria maravilhooosa amo tanto @julianaarv

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