Caminhando fora da margem, Miguel Filpi fala sobre transexualidade

Miguel Filpi (fotos de arquivo pessoal)

No país que mais mata transexuais no mundo, ainda falta muita estatística real sobre o grupo. Se você é trans e presta queixa sobre um crime de ódio, dificilmente verá nos boletins de ocorrência que a motivação do delito foi a transfobia e isso só reforça a marginalização dos transexuais na sociedade.

Contra todo esse processo de invisibilização, o entrevistado de hoje é o incrível Miguel Filpi, influenciador digital trans, de 25 anos.

Miguel não se lembra, mas sua mãe conta que quando ele tinha 5 anos de idade, ainda num corpo de menina, a puxou pela perna e falou: "mamãe, eu sou um menino". E é claro que a ciência explica isso... Lá no útero, na décima semana de gestação, as células formam a genitália do feto e só pela vigésima semana que a área do cérebro ligada à identidade de gênero começa a se formar. É aí que se há a coincidência com o sexo biológico, nasce uma pessoa cisgênero, se for incongruente, nasce uma pessoa transgênero. Deu pra entender?

"A vida inteira eu sempre soube que sou um homem, mas primeiro a gente pensa se é possível isso, sabe? Eu era mó novo, do interior, eu era de Araraquara, e não sabia que existia essa possibilidade. Tinham poucos relatos no Brasil, na época, eu mesmo nunca tinha lido muito a respeito, até por preconceito comigo mesmo. Eu sempre soube que era, mas pensava 'ah não, eu sou mesmo sapatão'", expõe Miguel, que enfrentava esse turbilhão de pensamentos aos 14 anos.

Antigamente, Miguel tinha cabelo comprido, pintava a unha e usava vestido, mas odiava tudo isso, principalmente usar saia. Depois de um tempo, começou ficar muito estressado com a situação. Tudo o que remetia a feminilidade causava repulsa nele. E então cortou o cabelo e passou a usar roupas do setor masculino das lojas. No começo, tudo isso foi muito legal para ele.



"Depois que eu consegui pelo menos me expressar através de roupas, cabelo, etc, eu vi que não era só isso. Eu vi que eu ainda era mulher, tinha corpo de mulher, eu ainda era visto como mulher. E o que eu achava que estava me fazendo feliz, me deixou só mais infeliz do que eu já era antes", conta o influenciador.

Foi aos 23 anos, cerca de um ano atrás, que ele voltou a ficar num lugar escuro, estava muito depressivo, e por isso começou evitar a família, que acabava soltando discursos preconceituosos para ele sempre que o via.

Em um encontro com amigas, Miguel teve a oportunidade de conhecer Luca Scarpelli, que é um homem trans e namorado de uma das amigas. Durante a conversa, nosso entrevistado pôde tirar muitas dúvidas com Luca, que falou com a maior naturalidade e imparcialidade do mundo sobre sua fase de transição.

Durante esse estalo que ele foi tomando cada vez mais coragem, tirou suas dúvidas também sobre mastectomia e fez a cirurgia, que ainda exibe as cicatrizes, que com o tempo vai sumindo, junto da escuridão que se via Miguel.



"E foi recente que minha família aceitou, só quando fiz a cirurgia mesmo. Eles vieram, abraçaram a ideia, não erraram mais o pronome. Agora está indo muito bem, porque eles realmente entenderam". Pais e familiares, que estejam lendo, vocês não sabem o quanto o apoio de vocês é importante para nós LGBTQI+, pois sabemos que na rua vamos sofrer preconceito, podemos ser agredidos e mortos, mas, quando estamos em casa, e temos o colo de vocês é como se recarregássemos nossa energia para voltar lá pra fora e lutar tudo de novo. Sejam nosso abrigo e não mais um motivo para sairmos perdidos.

A transição toda de Miguel ainda é recente, ele começou a hormonização no dia 29 de agosto do ano passado, vai fazer 10 meses no finalzinho de junho. Mas esse percurso trilhado até aqui já o faz se sentir muito mais próximo do corpo que ele realmente quer ter. "A voz, o rosto, a barba crescendo, a própria mastectomia, só me deixam cada dia mais feliz" e dá para ver no rosto dele toda essa felicidade transbordando, sem dúvidas eu fui muito contagiada pelo sentimento do influencer.

Quando se trata de luta por direitos que ainda nos faltam, Miguel reforça que falta igualdade entre cis héteros e as pessoas que integram a comunidade LGBTQI+. "Falta mais conscientização dentro das empresas também, que precisam acolher e apoiar seus funcionários trans. Tem muitos trans que ainda não têm o nome retificado nos documentos, mas mesmo assim tem o direito de mudar o nome no crachá", aponta.

"Se eu ainda não tivesse o nome retificado, ia na justiça lutar por isso. Eu vou falar com o Papa, vou falar com o Barack Obama, vou falar com o Lula, vou falar com a Dilma, vou falar até com o Bolsonaro se precisar. Coloca meu nome, está na lei", continua.



E mesmo com tanta luta, ainda vemos dados que são extremamente escrotos. Com raras oportunidades de emprego, uma estimativa feita pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), com base em dados colhidos nas diversas regionais da entidade, aponta que 90% das pessoas trans recorrem a prostituição ao menos em algum momento da vida.

Por causa disso que Miguel está sempre falando com quem o aborda para perguntar sobre transexualidade. Um de seus seguidores, o Cadu, conversa muito com ele através do Instagram (@MiguelFilpi). "Ele é um menino especial e é trans, vem me falar que quer passar pela transição, que quer se assumir pra família... Ele me chamou muito a atenção porque não veio atrás de mim pra eu dar atenção, veio para passar o problema dele, e, além das suas limitações, a família não o aceita, então busco sempre conversar com ele e dar apoio. Se eu pudesse, pagaria psicólogo, as cirurgias dele, mas o que posso fazer por enquanto é dialogar".



Um gesto simples, mas feito de coração, é capaz de transformar o mundo, mesmo que seja só o mundo do Cadu. Miguel ainda disse que pretende ir ao aniversário do seguidor, lá em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, no final do ano, para dar um oi, parabenizar e quem sabe conversar com a família dele.

Se você é trans, mas ainda precisa enfrentar tudo isso, busque ajuda! "Se sua família não te apóia, busque ajuda de amigos próximos, de outros trans que possam te auxiliar, procure ajuda de ONGs, sempre vai ter alguém pra te ajudar. O que vale mais é buscar sua felicidade", incentiva Miguel.

Toda a informalidade de Miguel Filpi


Quando o assunto é música, o influenciador diz que em seu fone de ouvido não deixa de tocar músicas de poc. Pabllo Vittar, Aretuza, RuPaul são alguns dos nomes que compõe essa lista.

"Isso é uma coisa muito legal que eu não fazia antes. Tudo que me remetia a feminilidade, eu meio que retraía. Olha como o machismo está instalado em todas as pessoas de alguma forma, mas a masculinidade é uma coisa bem frágil. Hoje eu sou um homem, hoje estou muito contente, muito tranquilo e seguro de mim. Eu escuto, danço, e se as pessoas perguntam se sou viado: 'não, mas e se eu fosse? Foda-se'", ressalta.

E se essas músicas remetem bastante a festas e baladas, fique sabendo que Miguel é muito caseiro. Segundo ele, 90% das vezes vai preferir rolês caseiros, aquela companhia para ver Netflix ou no máximo ir até o barzinho para tomar aquela breja gelada e bater papo com os amigos. Mas os outros 10% também rola e ele curte uma balada vez ou outra.

É com tudo isso que Miguel vê São Paulo como um lugar libertador, pois para ele aqui todo mundo pode ser quem quiser. "Foi aqui que eu me descobri, foi aqui que eu fiz meu tratamento, foi aqui que eu fiz minha cirurgia, foi aqui que eu tive as pessoas que ficaram ao meu lado o tempo inteiro. Eu sou apaixonado por São Paulo".

Se você quer encontrá-lo perdido por aí, pelas ruas de SP, provavelmente ele estará em algum cinema, pois ama longa-metragens, ou em algum restaurante "natureba", como ele mesmo diz.

Quem nos dera a vida fosse tão natural quantos os restaurantes que Miguel frequenta, enquanto isso tentamos escrever, dia após dia, o roteiro do nosso filme perfeito.

2 comentários:

  1. Lindo depoimento , mas tenho certeza que essa trajetória é muito dolorida... Miguel não teve nenhuma ajuda psicológica ?
    beijo solidário

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    1. Ele teve o suporte psicológico no início do tratamento, até para entender melhor como seriam os processos, e ainda tem esse acompanhamento.

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