Caique André e Fernanda Uehara sobre bissexualidade e o grito para manter a voz ativa

Caique e Fernanda (fotos de arquivo pessoal)

Em uma sociedade que precisa de rótulos para conseguir entender, ou no qual é necessário escolher uma só direção para dizer que tem um objetivo, ser bissexual é muito complexo.

"Você é indecisa", "vamos fazer um menage", "isso daí é coisa de safado", são só algumas das frases que nós bissexuais ouvimos pra caralho e, não ache que não, nossa vontade maior é de dar um socão na cara de quem fala.

E quando se trata de representatividade bissexual, temos alguém para nos espelhar? Claro, temos nomes como Miley Cyrus, Kristen Stewart, Lindsay Lohan, Megan Fox, Lady Gaga, Cara Delavgne, até trazendo aqui mais pertinho da gente, a Ludmilla. Mas, assim, e aquele povo que é gente como a gente? Os influenciadores digitais mesmo, que frequentam os mesmos rolês que a gente, que andam na rua como a gente, onde estão?



Se para mim, Fernanda Uehara, que sou mulher, já é difícil ser representada como bissexual, imagine para um homem, não é mesmo? Agora citem aí nos comentários quais são os bissexuais homens que vocês conhecem. É por isso que eu bati um papo muito produtivo com o Caique André da Silva, designer de 24 anos, bi e namorado de outro cara.

Para que também me conheçam, sou jornalista, bi sexy uau, tenho 24 anos e sou casada com uma mulher incrível chamada Ana Claudia.

Quando Caique começou se questionar sobre ser bissexual ainda era bem novo, ele tinha 11 anos e se via atraído tanto por meninas quanto por meninos. Mas passava por isso com um conflito interno bastante forte, pois frequentava a igreja cristã e enxergava sua sexualidade como pecado.



Um pouco mais velho, já após ficar com algumas garotas, ele deu o primeiro beijo "gay". "Não gostei muito e aí falei: 'pronto, é a confirmação de que sou hétero mesmo e tá ótimo'", conta Caique.

Só que os anos foram passando e ele ficou tão reprimido sexualmente, que não ficava nem com meninos e nem com meninas. "Aí eu abri o Tinder e coloquei a opção para buscar ambos os gêneros, foi quando conheci o Éder, meu namorado atualmente". Faz um ano que os dois estão juntos, gente <3


Caique e Éder

Já para mim foi bem natural mesmo. Eu sempre me vi atraída por pessoas do sexo masculino, até por causa da sociedade padronizada que vivíamos à época, não que não vivemos agora, só que antes era um pouco pior. Mas aos 11 anos de idade, quando comecei assistir Hannah Montana, me via totalmente apaixonada pela personagem Miley 
Stewart, interpretada por Miley Cyrus, que é minha crush até hoje hahaha.



Meu primeiro beijo foi aos 13 anos, em um menino e foi bem ecaaaa hahaha. Pouco tempo depois, com meus 14, 15 anos, já estava beijando algumas amigas com muita naturalidade. Afinal de contas, boca é universal, né, galera?

Mas foi aos 17 anos, após terminar com meu primeiro namorado menino, que me envolvi de verdade em um relacionamento com outra garota. Nunca tive dúvidas sobre a minha sexualidade.

Se para mim foi tão natural, para o Caique nem tanto. "Eu separava minha sexualidade em a parte correta e a parte errada, e foi assim até eu entender que as duas partes me tornam o que sou hoje". A bissexualidade em si sofre muito, tanto com pessoas de dentro da causa quanto com pessoas de fora, pois é bem comum haver uma separação em fases tipo: "agora eu sou hétero", "agora eu sou lésbica ou gay". E não é assim, somos apenas bi.

Depois que conseguimos lidar com nosso interior, e até mesmo antes disso, precisamos conviver com o resto da sociedade, e é aí que o calo aperta. É bastante complicado entender uma causa sem estar dentro dela... Héteros nunca vão entender como é gostar de se relacionar com ambos os gêneros e, no meu caso como mulher, o que sinto das lésbicas é que o fato de a bissexual também transar com homens a torna inferior, menos evoluída e coisas do tipo.

Quando contei aos meus pais que estava namorando a Ana - foi meio que aquilo de me assumir, nomeiem como quiserem, pois não gosto desse termo, já que hétero nenhum assume nada, nós também não temos essa obrigação - eles ficaram bem chocados e chegaram a dizer que nem imaginavam, pois eu sempre fui mais feminina...

Gente, sério, se tem uma pessoa com estilo indefinido sou eu. Hoje posso estar de saia ou vestido, mas amanhã estar com uma camiseta super larga e boné. Isso não quer dizer que um dia eu seja hétero ou no outro lésbica. E, fala sério, é mesmo necessário um estereótipo para podermos nos encaixar em algum lugar?

Esse problema é tão enraizado nas pessoas que não me excluo de certos preconceitos, temos de olhar para eles, refletir sobre o erro e ser uma pessoa melhor dali para frente. Digo isto, pois, uma vez, a Ana veio me falar sobre um casal de amigas nossas (uma delas é bi e a outra é bem molecona mesmo, de cabelo raspado, roupas largas e afins), no qual a bissexual é a ativa da relação e eu fiquei mega chocada.

Meu, como assim eu fiquei espantada com uma coisa que eu mesma vivencio? Eu ein, não é porque a bissexual já ficou com homens que ela seja passiva. Aí já até vai para aquelas típicas perguntas de "quem é o homem da relação?", que não tem nada a ver. A relação sexual das pessoas não nos dizem respeito e ponto.

As pessoas precisam, na verdade, aprender a escutar mais o próximo e, em vez de ficar apontando o dedo e falando sobre coisas que nem vivenciam, ter empatia e acolher quem precisa.

Quando o assunto é luta e resistência, nos choca muito saber que o Brasil é o país que mais mata LGBTQI+ no mundo. Ainda temos muito o que fazer pelas próximas gerações, e, para Caique, temos de naturalizar as relações homoafetivas, precisamos falar sobre isso com as crianças, "isso não é falar que a criança tem que ser gay ou tem que ser lésbica. Temos que mostrar a elas essas questões para que não tenham preconceito".

E é exatamente isso, quando dizem que o futuro está nas crianças, não estão mentindo. Para a minha irmãzinha, de 2 anos e 5 meses, meu relacionamento com a Ana é tão natural quanto o do meus pais, e quando ela está com a gente é tanto amor transbordando, que atingimos todos ao nosso redor.


Fernanda, Ana e Pietra

"Precisamos também sair de mãos dadas na rua, sim, colocar a cara no sol, porque essas pessoas lutaram, lutaram e morreram pra termos esse direito", completa Caique.




Faço das palavras do Caique as minhas, assim como as palavras de cada pessoinha que estou entrevistando para essa série especial, pois se eu não acreditasse tanto em vocês, na gente, não estaria dando voz para nossa causa, que é tão pura e bonita...

Ainda pensando nisso, acredito no poder da desconstrução, porque mesmo sendo vista como rebelde ou revoltada dentro da família, nunca deixei de debater temas sobre minorias sociais e é por causa disso que meus pais não reproduzem mais discursos, que para eles não eram, mas hoje conseguem enxergar, racistas, homofóbicos ou machistas.

E quando expomos tudo isso na internet, atingimos pessoas que nem imaginamos. "Uma amiga minha veio me dizer que eu falo tão bem sobre a causa, sobre as dores, que ela gosta de me ouvir falar e que ela, inclusive, mudou as coisas que trazia dentro dela. É muito legal receber esse tipo de feedback, porque eu falo muito sobre isso e acho que é totalmente essencial", ressalta o designer.

Várias pessoas (amigos, seguidores) sempre vêm me falar o quanto sou ativista, que lembram de mim ao ler sobre tal coisa, ao ouvir tal música, mas um feedback que recebi que me tocou bastante foi de uma menina em uma foto minha com a Ana na qual dizia que ela sempre acompanha meus posts, se emociona e até chora, pois inspiramos as pessoas e damos mais forças para que elas resistam. Isso é muito foda, cara, olha o poder que a representatividade tem.


Fernanda e Ana

E é por e para representar tanta gente que busca abrigo, conforto ou só uma palavra de motivação, que eu digo o quanto sou feliz e completa por poder amar a Ana Claudia. Nosso amor, assim como o do Caique e do Éder; da Carol e da Nat; do João e do Ademir; do Heverton e do Luan; da Thais e da Thais e da Paula e do Marco, incomoda muito a sociedade preconceituosa, mas inspira e dá forças para tantos outros que só precisam de compreensão. O amor é a revolução!

Se você também quer falar comigo (@FernandaUehara) ou com o Caique (@the_rythym) sobre bissexulidade, sobre a causa LGBTQI+ no geral ou sobre todas as lutas sociais, podem chamar lá no direct do Instagram ou só seguir para acompanhar nossas publicações e stories que são cheios de resistência.

Um comentário:

  1. Realmente difícil pensar num nome de homem bissexual ...

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