Roberta Estrela D’alva: A arte é a nova ágora da política

Por Fernanda Souza

Foto de Renato Nascimento


Roberta Estrela D’alva é a primeira mulher a assumir sozinha a apresentação do programa “Manos e Minas”, destinado à produção da música urbana e iniciativas da coletividade de rua em seus diversos segmentos, transmitido semanalmente pela TV Cultura.

O local muito acolhedor e descontraído da entrevista foi o Teatro Franco Zampari, ao lado da estação Tiradentes do metrô de São Paulo. Momentos antes da gravação, em seu camarim, ela escolhe o brinco ideal para compor o look. “Qual você gostou mais, querida? Esse está mais parecido com que as meninas estão usando nas ruas, né?”, declara.

Aos 40 anos, Roberta não se limita apenas a uma profissão e domina a arte das palavras. “No desamparo, amperagem da revolta é mil volts, temperatura do sangue bombeando é mil grau. E suportar a pressão é trabalho de herói, mas se Zumbi somos nós, não é mais pessoal. Que tal?”, recita em uma de suas apresentações no slam (campeonato de rimas e poesias).

Confira como foi a entrevista:

À Paulista: O movimento hip hop já foi dominado por homens, com letras que tratavam em sua maioria da objetificação feminina. Como é ser a primeira mulher a assumir sozinha o comando do “Manos e Minas”?

Roberta Estrela D'alva: Quando você apresenta um programa, não está só apresentando. Você participa das reuniões de pauta, das ideias, do pensamento do programa como um todo. Então, é interessante para trazer esse ponto de vista. É muito importante essa questão do lugar de fala e ter assuntos femininos pautados por mulheres. Fora que os homens também tem que lidar com a questão de ser uma apresentadora, uma postura que até eles assumem quando estão respondendo as coisas.  O ponto principal é participar ativamente com a visão de uma mulher, que é bem diferente.

AP: O rap é importante para mostrar soluções políticas e fazer com que mais jovens se interessem sobre os acontecimentos de seu país?

RED: Depende da política que estamos falando. Pode aproximar de que? Porque o rap já é política em si. Nos fizeram acreditar que política é aquela partidária, do PT e PSDB. Só que isso que você está fazendo comigo agora é um ato político, por exemplo, entendeu? Então, eu acho que sim, é uma maneira de se dialogar. Não sei se alguém faz o outro, hoje em dia, se interessar por alguma coisa. As pessoas se interessam pelas coisas que elas definem como boas para a vida delas. Sem demonização e sem moralismo. Não é bom ou ruim, é o que é.

AP: Você acredita na eficácia da intervenção federal no Rio de Janeiro? Falta uma intervenção educacional e cultural para a população?

RED: Eu sou totalmente contra, não só no Rio de Janeiro, mas também em São Paulo ou qualquer outro lugar. Quando a polícia brasileira foi criada, sua principal função era reprimir os quilombos e os ajuntamentos escravos. É um mecanismo de controle para manter o interesse de uma classe intacto, não é para manter a ordem, é bem claro isso. E as pessoas à quem ela serve, são as pessoas brancas e ricas, que na verdade sempre dominaram o Brasil. Então, não! É igual a maior idade penal, não dá para discutir a redução sem discutir um sistema sério de educação. Uma coisa vem antes da outra. 

AP: Como podemos manter um debate saudável em uma sociedade que é incapaz de parar e escutar o que o outro tem a dizer?

RED: A arte é a nova ágora (lugar de reunião) da política. O âmbito da arte e da cultura é o lugar aonde a gente consegue transcender e, de forma poética falar de política de uma outra maneira. O debate é um campo artístico. A música, a poesia e o teatro têm a capacidade de nos fazer evoluir, sair um pouco da miséria que é a vida: trabalha, come, dorme, toda essa rotina. Sair um pouco do mundo comum, abrir as janelas. 

AP: Quem são os seus ídolos e as pessoas que inspiram o seu trabalho?

RED: Eu gosto muito de um cara chamado Saul Williams, porque ele é slammer, cantor, ator, do hip hop, parece que veio do mesmo lugar que eu. Também acompanho o Spike Lee, um cineasta. Racionais, Erykah Badu, Bjork, Caetano Veloso, Rage Against The Machine, minha cantora favorita é a Ceumar, meus cantores favoritos são o José James e o Nat King Cole. Em relação a escritores, Guimarães Rosa e Mário de Andrade. Não citei nenhum ator, né? Juliana Galdino e Georgette Fadel, grandes atrizes.

AP: Sobre a sua rotina, como é conciliar todas as atividades?
RED: Eu preciso ter gente trabalhando comigo, durmo pouco, tenho que me organizar bastante. Fiz 40 anos recentemente e me sinto bem. Eu estou com um plano de diminuir as coisas, mas para isso você tem que escolher o que realmente quer fazer. 

AP: No momento você tem se dedicado mais para o slam e o programa?

RED: Eu tenho. Estou planejando a minha volta para o palco, porque eu sou atriz e sinto muita falta de atuar. Os processos de teatro demoram muito, quem é ator de formação mesmo, como eu sou, sabe. Comecei muito cedo e, no Bartolomeu (Núcleo Bartolomeu de Depoimentos), que é a minha companhia, foi uma experiência muito forte. Nós estamos sem sede, tem muitas coisas dificultosas, mas vamos voltar!

AP: E você pretende voltar esse ano ainda?

RED: Acho que sim, vamos ver. Se a gente conseguir dinheiro, tudo depende.

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