Além do rock'n roll: Supla é tão social quanto as letras de sua música

Por Fernanda Uehara e Nancy Caprini


Foto de divulgação

Segundo andar, é onde o elevador para e entramos no hall do apartamento de Supla: Escuro, com paredes pintadas de roxo, possui luzes apenas para iluminar os quadros de grandes expoentes da música como: John Lennon, Mick Jagger, Sid Vicious e o próprio Supla. A decoração perfeita para a casa de um músico.

Mesmo parecendo ser uma típica residência no Jardins, bairro nobre de São Paulo, o endereço encontra-se bem ali no Centro, na Praça da República, onde barracas de artesanato, comércios populares e restaurantes de fast-food, prato feito e chiques se misturam.

"Eu gosto de morar aqui, por causa das pessoas que tão aí, né? Gosto do contato com o povo. Acho importante como cidadão, fico muito a par de tudo que tá acontecendo. Já até participei de manifestação. Por ser uma pessoa pública, tem gente que não entende, mas por mim, eu participaria mais", expôs o cantor, que tem influências políticas de seus pais Eduardo Suplicy e Marta Teresa Smith.

Com a vista da sacada para a principal via do bairro central, a voz de Supla, dessa vez, não vem acompanhada do instrumental de sua banda, mas do som emitido pelos ônibus, carros e motos, que, mesmo no feriado, não param de circular pela cidade.

Fomos recebidas na Sexta-feira Santa, era seu dia de descanso. O horário, que era para ser do almoço, ponteiros quase às 12h30, na verdade, era de seu café da manhã. Três xícaras de café e uma ponta acesa para acordar bem.

Para quem havia acordado há 10 minutos, os cabelos loiros pareciam ter amanhecido já espetados. Depois de tantos anos com o penteado, os fios já devem dormir e acordar do mesmo jeito.


Foto de Fernanda Uehara

Mesmo com a brecha para descansar um pouco mais, não se iluda, ele estava e ainda está trabalhando pesado. Hoje (05/04), Supla lança o álbum "Illegal", físico e em todas as plataformas digitais, que faz muitas críticas sociais ligadas à imigração, e amanhã (06/04) realiza o show de lançamento do disco, no Auditório do Ibirapuera.


"Por mais que eu possa falar só de uma coisa, de imigrante, vai se passando por tudo, porque é tudo social. Agora é bom lembrar, eu faço rock'n roll. Muita gente pergunta sobre o que é esse novo álbum... Bom, musicalmente eu chamo de música do Supla, que tem presença de new wave, música Supla metal, música Supla hardcore, punk rock, música da Polinésia, música eletrônica, é tudo nesse campo". Já sobre as letras do repertório, ele afirma falar sobre tudo, seja política, amor, preconceito... "Fala da vida".


Diante de tantas referências citadas, engana-se quem acredita que Supla se limita a influências de Billy Idol, David Bowie ou Ramones. ''Pra mim, o trabalho atual mais interessante é do Andre Abujamra. Fui num show dele e me identifiquei muito, é música sem fronteira. Tinha orquestra, percussão pra caramba, a melodia é linda, as letras são pesadas. A musicalidade transita desde blues à música da Argentina''.


Foto de Fernanda Uehara

E quem vai ao show de lançamento, pode esperar um espetáculo cheio de todas essas misturas e discussões sociais que a música do Supla proporciona. 


"A minha ideia do clipe (Illegal), do muro, a gente vai levar pro show do Auditório do Ibirapuera. Tem uma coisa, o muro reverte. Não só o muro de Berlim, ou o muro do Trump, ou a qualquer tipo de fronteira, mas entra aquela história de rock também, porque tem o lado político, mas tem uma coisa banal de rock'n roll", explicou.



O lado humano

Mesmo por nunca ter passado dificuldades financeiras ou sociais, Supla sabe se colocar no lugar do próximo e tenta, ao máximo, ajudar humanamente alguém com quem cruza, mesmo que aquilo não vá mudar o mundo.

"Você não vai conseguir mudar o mundo, mas se você tem 10 reais que não vão fazer falta e dá pra quem precisa, já faz diferença pra ele, é humano. Não precisa nem ser isso, só de você parar, conversar com ele dois minutos, dar uma atenção, já é importante, tem que ter compaixão", ressaltou Supla.

O próprio clipe de "Illegal" mostra o artista, nas ruas do Centro, cantando com o povo que está na rua, com tantos imigrantes que fazem o comércio popular brasileiro ser quem ele é.

Foto de divulgação

Ainda assim, Supla já precisou ouvir que seu pai, Eduardo Suplicy, é mais modesto que ele. "Teve uma vez que eu estava indo encontrar minha mãe para um jantar. Eu tinha tomado banho há 10 minutos, estava todo perfumado, aí parei no semáforo e veio um morador de rua pedir dinheiro. Eu dei 10 reais, mas não apertei a mão dele, porque ele estava sujo, aí ele disse que meu pai é mais humilde que eu. Fiquei muito mal com isso, tanto é que dei a volta no quarteirão e voltei para apertar a mão do cara, mas ele não estava mais lá".

Governantes

Aos 51 anos de idade e 15 discos lançados ao longo da carreira, é muito comum ouvir em suas canções críticas ao governo, seja ele brasileiro, americano ou até mesmo mundial.

É como na música "Prazer Exclusivo", que Supla critica o atual, somente até amanhã, quando passará o bastão para Bruno Covas, prefeito de São Paulo João Doria e seus eleitores.

"Do Doria eu só falei, porque tem que tirar um sarro do 'coxinha', né? É engraçado, né? Independente de você gostar ou não, quando ele começou, eu falei que ia ter que dar uma palmatória, de repente ele fizesse um bom trabalho, e se ele fizesse, eu ia ficar quieto. Por que não se ele fez um bom trabalho? Foda-se. Mas não fez. Ficou feio pra ele. Cara, os cara tiram sarro de mim o tempo inteiro, de tudo, tenho que ter o bom humor também, sabe?"


Sobre a atual crítica, feita em "Illegal" ao Trump, Supla ressalva que não existe ilegalidade, porque ninguém pediu para nascer, e que isso só mostra o quanto o presidente dos Estados Unidos é egoísta e só olha pra si mesmo, já que nem sua ex e nem sua atual esposa são americanas, logo deixando-as também com dificuldades de visto no país.

A melhor saída no mundo atual, para ele, seria haver votações através de enquetes pela internet para saber o que fazer ou não fazer. "Essa semana, a pessoa que não votar perde o direito de opinar e pronto, na semana que vem ela vota. Acho que seria muito mais justo e democrático. Não sei, só estou tentando achar uma solução", brincou o cantor.

Uma coisa é certa, a medida que o mundo muda e a sociedade evolui, ou retrocede, Supla continua fazendo música que ajuda as pessoas refletirem. "C mmon kids", venham pensar com o "papito".

Nenhum comentário:

Postar um comentário