"Um povo sem história não é nada": Preta-Rara sobre o passado como doméstica, professora de história e o presente como cantora

Foto de divulgação

Cheia de Audácia (nome de seu primeiro EP, lançado em 2015), Joyce Fernandes, de 32 anos, a cantora e compositora mais conhecida como Preta-Rara, saiu das casas de moradores de Santos, no litoral sul paulista, como doméstica, para ser professora de história de tantas crianças e adolescentes, e, hoje, volta em cada lar e cada escola através de sua música, ensinando tanto quanto antes.

Militante feminista e do movimento negro, Preta denunciou os abusos de patroas, na internet, deu muitas aulas de história para educar crianças e adolescentes, e ainda teve uma websérie, "Nossa Voz Ecoa", em dez episódios, para tratar de assuntos como gordofobia, racismo, machismo e hip-hop. Tudo isso com muito glitter na maquiagem e cabelos cheios de volume e cor.

A grande aliada nesse empoderamento todo é a música. "Como eu estou há 12 anos na correria cantando rap, as pessoas pensam que eu só escuto rap. Na realidade, eu escuto rap também, porque é o que eu menos escuto. Então, eu pude trazer o projeto Selecta Rara, que são as músicas que eu uso para trabalhar minha autoestima, rebolar e descer até o chão".

Quem já teve oportunidade de ouvir o projeto Selecta Rara, pôde notar forte presença do forró, do funk e do pop na setlist. De fato, quem é que não rebola muito a raba com a faixa "Me Libera", da Banda Dejavú?

Mesmo com tanta vivência, poder e voz, ela ainda se emocionou ao falar com o À Paulista e ficou sem palavras quando o assunto foi seus alunos e seu público. Confira o bate-papo completo:

Foto de divulgação

À Paulista: Você não aumenta só a sua autoestima, mas de outras milhares de mulheres. Você pensa bastante nelas quando está criando?

Preta-Rara: Sim. Eu cheguei numa fase da minha vida que eu entendi agora o que significa essa palavra que todo mundo fala, que é a tal da representatividade. Depois de trombar várias minas, me abraçando, chorando, falando: "meu, eu pensei em me matar, mas escutei suas músicas, vi sua foto de biquíni, e aí eu vi o quanto eu posso ser bonita também", saca? Então, hoje em dia, eu tenho mais essa responsabilidade, de tudo o que eu faço, que eu sei que vai influenciar outras pessoas. Antigamente não, era mais no "as pessoas que têm que se identificar, se não quiserem, dane-se".

AP: Eu vi que você é professora de história. Como é para você essa parte da sua vida? Porque é uma profissão muito importante.

PR: Eu me formei em 2011, antes eu era empregada doméstica. Quando eu entrei na faculdade, eu ainda era empregada doméstica. No final de 2009, eu consegui o primeiro estágio e me tornei professora. Hoje, eu não leciono mais, lecionei até 2016, mas chega uma fase que, infelizmente, eu tive que decidir se continuaria na minha vida artística ou dando aula, porque estava muito complicado. Eu sou de Santos, então subia e descia (a serra) todo dia. Todo dia não, mas umas quatro, cinco vezes na semana, e de manhã tinha que estar lá linda e bela dando aula, como se nada tivesse acontecido. Mas é uma fase que foi bem importante pra mim também, que eu tive a responsa aí de influenciar os alunos. Na realidade, eu sempre falo que eu mais aprendia do que ensinava, saca? E aí foi muito bom esse momento.

Foto de divulgação

AP: E o que você acha que o professor, principalmente de história, representa nas escolas, para as crianças e adolescentes...

PR: Eu costumo dizer que as maioria dos professores representam a revolução dentro da escola, né? Que o professor de história é sempre tido como um maluco, revolucionário. Hoje em dia, tá mais complicado ser professor de história, porque a história ela é cíclica, mas não nessa velocidade, falando de história do Brasil, política e tal. Então o professor tem que estar atualizado, ele tem que sacar das coisas, sabe? Ele tem que utilizar gíria, como eu utilizava também, e em meio a esse caos de informação, essa velocidade, então você tem que estar bem atualizado, não só no conteúdo, mas no dia a dia e conhecer quem são seus alunos, para poder realmente ter uma troca para que essas crianças, esses adolescentes, percebam que é importante, é legal estudar história, porque um povo sem história não é nada, né?

AP: Você acha que o seu trabalho atualmente, artístico, está muito relacionado com o seu passado como professora?

PR: Ah, bastante! Porque foi através do movimento hip-hop que eu quis estudar história, né? Por causa da música "Falsa Abolição", quando eu escrevi, tinha bastante conteúdo histórico e tal. Então, hoje em dia, tá muito atrelado. Tipo, não é que eu tô no palco ensinando ninguém, saca? É uma troca, né? Mas não deixa de estar nessa função de educadora também e sendo educada por outras pessoas, enfim... Eu acho que tudo o que eu faço é muito mergulhado na história, porque história é tudo.

Foto de divulgação

AP: E como você aprendia com seus alunos e como aprende, hoje, com seu público?

PR: [...] Tuuutuuu, que difícil (risos). Ai, deixou a Preta-Rara sem fala. Como que eu aprendo com meu público e como que eu aprendia com meus alunos? Bom, com os alunos eu aprendia no dia a dia, por conta dessa velocidade de informações. Eu sempre ativava e instigava eles. Eu falava assim: "Na próxima aula, a gente vai começar Egito Antigo", saca? E aí eles já chegavam prontos, tá ligado? Porque eles queriam pesquisar, e eu soltava algumas informações, algumas curiosidades, então eu aprendia dessa forma. Eles chegavam e somavam às minhas aulas. E com o público, eu aprendo no dia a dia o que é ser mulher preta, o que é ser mulher, o que é ser preto dentro dessa sociedade, o que é ser ser-humano, sabe? E como que a gente pode influenciar na vida das pessoas de alguma forma, seja pela internet e tal. Então, as pessoas também me mandam algumas coisas, tipo temas, "ai Preta,escreve uma música sobre isso, sobre aquilo", a todo momento. Tem coisas que eu escrevi por influencia do público, né? Por exemplo, a música "Conto de Fadas", que eu falo de um cara que me tratava bem e depois me largou, e depois eu consegui sair dessa e me levanto após o tombo pra recomeçar. O momento que eu escrevi, eu tava tranquilona, suave, eu era casada, mas as pessoas pediram pra eu escrever. Então o público também me ajuda até na parte de compor, de escrever coisas que não são minhas, mas que podem ser minhas um dia.

Foto de Nadine Paula (À Paulista)

Sorte mesmo é de quem teve a oportunidade de ter aulas com uma mulher como Preta-Rara, de ter aula com A Preta-Rara, não é mesmo?

Mais do que em uma sala de aula, todos nós ainda podemos aprender muita coisa com ela, basta acompanhar seu trabalho nas redes sociais abaixo, perde não, rapa:


Preta-Rara e nossa editora Fernanda Uehara (Foto de Nadine Paula)

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