"Você ainda precisa ganhar muita batalha"...


... É com essa frase que uma das irmãs de Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, reage à sua primeira vitória em uma batalha de MCs. Sabem por quê? Porque naquele dia, apenas sete pessoas se reuniram, para batalhar, em Santa Cruz, e cada um deu R$ 1, tendo como prêmio ao vencedor, os primeiros R$ 7 da história da batalha mais famosa de São Paulo.

Era fevereiro de 2006, primeira vez que meninos que gostam de rap decidem marcar um encontro, o local escolhido foi o bairro Santa Cruz, na Zona Sul de SP, bem ali, saindo à esquerda da famosa estação de metrô da Linha 1 - Azul.

"Eu vi que ia rolar esse encontro em um grupo do Orkut, olha que doideira, mano. Sou meio desesperado, estava marcado para às oito da noite, eu cheguei lá às cinco (risos). Fiquei esperando, esperando... Deu sete horas, já pensei que era mentira, que ninguém ia colar. Mas aí foi chegando uns manos e ficamos em sete. Eu ganhei a batalha, o prêmio era sete reais (risos)", contou Emicida, na aula-espetáculo que deu no Sesc Vila Mariana, no último domingo, e o À Paulista foi conferir.

Na brincadeira da irmã do rapper tinha tanta verdade, que Emicida ganhou inúmeras batalhas antes de chegar onde chegou. Não foram apenas as sete vezes consecutivas vencedor da Batalha da Santa Cruz que o consagraram. 

Depois disso, lançou seu primeiro single, "Triunfo", que veio como um tiro muito certeiro para o cenário do rap, que já não via lançamentos consagrados há um bom tempo, e daí em diante foi só subindo cada dia um degrau.

Fotos de Fernanda Uehara

Veja a discografia completa:

- "Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe" (2009)
- "Emicidio" (2010)
- "Sua mina ouve meu rap também" (2010)
- "Doozicabraba e a revolução silenciosa" (2011)
- "Criolo e Emicida ao vivo" (2013)
- "O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui" (2013)
- "Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa" (2015)
- Gravação do primeiro DVD (2017)

E no meio disso tudo, quanta parceria incrível ele fez, hein? Teve Pitty, Mc Guimê, Wilson das Neves, Felipe Vassão, Rael, Miguel, Caetano Veloso, Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike, Raphão Alaafin, Mc Marechal, Vanessa da Mata, Rashid, Criolo, Karol Conka e tantos outros.

No meio dessa lista toda, cada um com seu enorme valor, a história mencionada com mais carinho, na aula-espetáculo, foi a de Wilson das Neves, que faleceu em agosto do ano passado.

"Uma vez ele me falou: 'Só morre quem não presta'. E não é que ele tinha razão? Quando você é bom, permanece na memória de quem fica, nas histórias que eles contam. É assim com ele. Ainda é muito difícil, pra mim, assimilar que ele morreu, porque em roda de amigos, falamos muito dele e sempre parece que ele ainda vai me ligar e bater um papo."

Quem sabe o próximo disco do Emicida não venha recheado de referências ao Wilson das Neves, que "é percursor dos áudios no WhatsApp, só que sem WhastApp", já que sempre que tinha ideias para uma nova música, gravava uma fita cassete e mandava por Sedex para o rapper.

"Não sei se em breve, mas algum dia vou fazer. Pra mim, ainda é muito doloroso ter que abrir aquela caixa cheia de fitas do Wilson e ouvi-las", explicou.

Mas um coisa é certa, Emicida ganhou muitas batalhas, de rimas e da vida, e assim como Wilson das Neves, nunca será esquecido, porque sempre estará na memória de amigos, familiares, fãs e na história do rap.

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