“Ele já faz parte da minha vida”: Bruce Gomlevsky fala sobre o sucesso de “Renato Russo – O Musical” e o amor pelo rock nacional

Na última sexta-feira, o À Paulista assistiu ao espetáculo “Renato Russo – O Musical”, no Theatro Net, e conversou exclusivamente com Bruce Gomlevsky, interprete do cantor. Confira abaixo a review da peça e o bate papo com o ator.

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Luz baixa, apenas um homem no palco, uma voz grossa ecoando pelo teatro e gestos e trejeitos muito conhecidos:  Assim começa “Renato Russo – O Musical”, espetáculo que está há 12 anos em cartaz, já rodou por 40 cidades brasileiras e estreou, em janeiro, mais uma curta temporada em São Paulo, dessa vez no Theatro Net, localizado na Vila Olímpia.

Ao contrário de musicais tradicionais, que costumam contar com um elenco com mais de uma dezena de atores, o musical é um monólogo, interpretado pelo ator, músico e diretor, Bruce Gomlevsky, e repassa momentos importantes da vida de Renato Russo.

Durante 120 minutos, sem pausas, conseguimos observar, através de Bruce, as tristezas, angustias, descobertas e felicidades de um dos maiores letristas do país, considerado, por muitos, um verdadeiro poeta.

O espetáculo repassa a vida do ídolo ao longo de 22 faixas, mostrando diferentes momentos. Vemos quando Renato ficou entre a cadeira de rodas e a cama, por conta de uma doença óssea; a criação do Aborto Elétrico e da Legião Urbana, o trabalho solo, a descoberta do amor verdadeiro e o sofrimento que sentimento pode gerar.

Dois momentos especiais conseguem emocionar os fãs e até mesmo quem foi apenas como acompanhante: A apresentação de Giuliano, filho do cantor com uma fã, seguida pela faixa ‘Pais e Filhos’, e a descoberta da AIDS, doença com a qual Renato viveu os últimos anos da vida. O ápice do musical fica por conta dos períodos em que Bruce convida o público para cantar mais alto, desce do palco, toca nas mãos do público e ainda distribui rosas para alguns poucos espectadores sortudos.

Extremamente sensível e poética, a peça é uma pedida certa para quem gosta de música e história, e imperdível para os fãs do cantor, principalmente para os que, assim como eu, por conta da pouca idade, nunca puderam ver o músico ao vivo.

Após conhecer mais sobre a peça, confira agora nossa entrevista exclusiva com Bruce Gomlevsky:


À Paulista: Como surgiu seu amor por Renato Russo e Legião Urbana?

Bruce Gomlevsky: Eu cresci ouvindo toda aquela leva de bandas que surgiram nos anos 1980, não só Legião Urbana e Renato Russo, mas também Titãs, Paralamas, Barão Vermelho, Plebe Rude, Ultraje a Rigor e Ira. Eu lembro até hoje que a primeira vez que eu fui num show de rock eu tinha 10 anos de idade e meus pais me levaram ao primeiro Rock in Rio. Então isso faz parte da minha formação, não só como ator e como cantor, mas também como ser humano.
Eu sempre considerei o Renato Russo o maior porta-voz dessa geração e era fã na época de adolescência. Como sou ator, percebi que fazer um musical seria a melhor maneira de homenagear o Renato, que é tão importante para todo mundo que estava crescendo nos anos 1980, juntamente com o Rock Brasil.

AP: Os musicais são muito associados a um espetáculo grande, com muitas pessoas em cena. Quando e como você teve a ideia de deixar apenas uma pessoa no palco para retratar o Renato?

BC: Quando idealizei o projeto, eu já pensei como um monologo, porque eu queria contar a história do Renato Russo, não da Legião, não teriam os outros músicos como Dado e o Bonfá. Eu queria centrar na figura do Renato, fazendo um apanhado da vida e da obra, por todas as fazes da carreira dele.

Quando eu convidei a Daniela Pereira de carvalho, que escreveu o texto, e o Mauro Mendonça Filho, que é o diretor e também contribuiu na dramaturgia, eu já brifei eles dessa maneira: quero fazer um musical, monólogo, eu como ator em cena e uma banda. A ideia do formato nasceu antes do texto ser escrito.

A gente estreou há 12 anos e eu acho que “Renato Russo - O Musical” é o percussor dessa onda de musicais biográficos, na época não estava na moda, como hoje em dia. Depois fizeram Tim Maia, Cuzuza, Cassia Eller, Simonal, Rock in Rio...

AP: Quais foram os momentos mais especiais nesses doze anos?

BC: A gente já viajou por mais de 40 cidade brasileiras, então é difícil destacar um só momento especial. Mas acho que é a possibilidade de viajar o Brasil e perceber que tem uma nova geração, tem um público de 13 e 14 anos e adolescentes que conhecem Renato Russo e Legião e cantam todas as músicas.

Também perceber que essa legião de fãs, está se renovando é muito especial. É coisa que se passa de pai para filho, meio Beatles.

E eu atribuo isso à qualidade artística do Renato, à poesia, à maneira como ele escreve as letras. É atemporal, é universal, qualquer jovem, de qualquer lugar do país, se identifica.

AP: Por que você o considera atemporal?

BC: Porque ele é um grande poeta. É difícil ter um letrista tão consistente. O Renato tinha uma qualidade muito interessante, ele era muito culto, conhecida tudo de arte, de cinema, de teatro de música. Era um erudito, mas conseguia, com a obra dele, equilibrar uma qualidade artística extrema, com a popularidade extrema.

Infelizmente, hoje em dia parece que o que é mais popular tem que estar associado a uma coisa que não é tão bom artisticamente. O Renato conseguia equalizar essa questão da arte com a popularidade, de maneira como poucos no rock brasileiro.

AP: Você ainda se emociona ao interpretá-lo?

BC: Com certeza. É muito intenso. As letras dele são muito profundas e o repertório muito denso. Ele fala de ética, do Brasil que não muda, da política, de amor, fala das relações humanas. O discurso dele é muito pertinente ainda hoje.

AP:  Qual o seu momento preferido do musical?

BC: Ah, tem muitos momentos. É bonito o momento de ‘Pais e Filhos’, quando o Renato traz o filho dele, Giuliano, ainda no carrinho de bebê, e ele deixa a criança com os pais, para os avós cuidarem. É um momento que desço à plateia, toco as mãos das pessoas, sinto o carinho das pessoas. “Será” também é um momento muito bonito, pois canto e entrego uma rosa para alguém da plateia.

É muito curioso ver como todo mundo canta todas as músicas. São 22 duas faixas cantadas em cena e é muito calorosa a resposta do público. Eu nunca tinha feito um espetáculo que emocionasse tanto as pessoas.

AP: No cenário musical atual, você acha que é mais difícil encontrar alguém que fala de amor como o Renato falava ou canta sobre política com tanta coragem?

BC: As duas coisas. É difícil ter letristas e poetas com a profundidade do Renato, do cazuza, desses grandes ídolos dos anos 80. Talvez seja sintomático de um mundo cada vez mais superficial que a gente vive. A gente tem um paradoxo, nunca se teve tanto acesso a qualquer tipo de informação, através da internet, mas as pessoas estão cada vez mais superficiais e pasteurizadas.

AP: Tem algum artista no cenário nacional que você acha que seguiu o que Renato fazia?

BC: Olha, é difícil porque não existe uma cena de rock no Brasil, assim como em países como Inglaterra e Estados Unidos. Eu não vejo surgirem grandes novos artistas de rock, existem outras áreas, como o sertanejo, samba, funk. Eu sou roqueiro, então me sinto meio órfão desses grandes ídolos. (risos) Como diria Cazuza, meus heróis morreram de overdose.

Porém, ainda tem grandes figuras na música popular brasileira, desde Gil, Caetano, Gal, Chico, está todo mundo aí até hoje, mas confesso que sinto falta de surgirem novos nomes na cena de rock.

AP: Você consegue definir como é a experiência de interpretar o Renato com um verso da própria legião?

BC: Não sei se com um verso da Legião. É um grande desafio fazer o Renato, é uma responsabilidade grande. Eu nunca imaginei que ficaria tanto tempo em cartaz, hoje em dia é tão difícil fazer teatro, a gente fica dois, três meses em cartaz, e eu estou fazendo há 12 anos esse espetáculo.

Lembrei. Tem um verso do Renato, “Não é vida como está e sim as coisas como são”, de Meninos e Meninas.

Tenho muita gratidão porque o público vem, paga ingresso e a gente consegue fazer uma temporada como essa, em São Paulo, sem patrocínio, mesmo com 12 pessoas vindo do Rio de Janeiro.

“Renato Russo - O Musical” é um marco na minha vida. Tem o Bruce de antes e depois do espetáculo.

AP: Após 12 anos, como “se desligar” do Renato?

BC: Ele faz parte da minha vida, com certeza. Mas eu tenho uma inquietude como ator, como artista e estou fazendo outros trabalhos. Faço cinema e televisão sempre, inclusive dirijo outros espetáculos, faço outras peças como ator. Eu me divido em muitos projetos, isso me alimenta e enriquece, e deixa descansar um pouco do Renato Russo o Musical.


Mas o Renato faz parte da minha vida. Difícil me desvencilhar dele, acho que vou estar sempre associado a imagem dele, e isso para mim é motivo de orgulho. É uma honra poder estar ligado ao nome do Renato e fazer esse personagem no palco. É um privilégio.


SERVIÇO:

RENATO RUSSO, O MUSICAL
THEATRO NET SP (800 lugares)
Endereço: Rua Olimpíadas, 360 – Shopping Vila Olímpia/5° andar
Bilheteria: terça a domingo, a partir das 14h.
Vendas: www.ingressorapido.com.br / 4003.1212
Sexta e Sábado às 21h | Domingo às 17h30
Valores: De R$ 50 a R$ 120 
Duração: 120 minutos
Recomendação: 12 anos
Gênero: musical


Crédito da imagem: Reprodução/Internet | Agradecimento especial: Morente Forte

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