Sobre assédio moral e sexual no trabalho: Não se acostume com o que te faz mal


Preciso começar este texto com uma pergunta básica: quantas vezes você já relevou uma atitude de alguém ou um acontecido? Se a resposta for "muitas", nós precisamos conversar.

Desde criança eu sempre escutei que, ao longo da vida, precisamos nos acostumar a "engolir sapos". Nem sempre o cenário lindo que está em sua cabeça acontece. Acredito fielmente nisso, porém, há uma diferença muito grande entre aguentar uma crítica ou situação e aprender com isso e passar por momentos que realmente te machucam e fazem mal para a sua saúde (física e psicológica).

Recentemente fechei um ciclo profissional de dois anos e comecei outro. Logo na primeira semana percebi a diferença entre o primeiro e o segundo e começaram a surgir, em minha cabeça, milhares de pensamentos sobre situações as quais eu fui exposta anteriormente.

Comecei a listar alguns absurdos e percebi que assim como muitas pessoas que enfrentam relacionamentos abusivos, eu parei de notar o quanto tudo aquilo me machucava.

Lembrei que, em um dia normal de trabalho, minha amiga fez um cappuccino e deixou cair duas ou três gotas de leite na pia. Por conta disso, enquanto digitava e seguia minha rotina, fomos chamadas de "vacas".

O xingamento não partiu de um colega, foi de um "homem da sala do lado". Na hora eu fui ao banheiro chorar. Lembrei dos quatro anos de faculdade, esforços e tudo que fiz... tudo isso para ser ofendida dentro de uma agência.

Chorei ao chegar em casa, por não ter coragem de contar para minha mãe, e no dia seguinte, quando estava no elevador subindo para o meu andar. Chorei mais um pouco ao perceber que, para mim, aquilo tinha sido devastador, mas pra o resto da equipe, incluindo o meu superior, foi tão "banal" que não mudou em nada o ambiente.

Recordei que a pressão psicológica enfrentada durante o período foi tão pesada que eu precisava viver 10 horas do meu dia (sim, tudo isso), baseando-me no humor de outra pessoa. Se ela estava bem, eu conseguia trabalhar, conversar e viver; caso contrário, eu temia qualquer movimento maior e cada batida nas portas e gavetas (que eram muitas). Eu levava almoço e não conseguia comer. Precisava sair do ambiente, se não passava mal.

Além disso, ainda aguentei meses de piadas, comentários e análises de cunho sexual. Enquanto preocupava-me com os meus afazeres também precisava torcer para não ter que recepcionar e ser simpática com quem já havia se sentido no direito de me chamar de "gostosa" na frente de toda a minha equipe, falar que largaria a esposa e a namorada para ficar comigo, e que tinha sonhado com nós dois transando.

No começo achei que era brincadeira e até ri. Com o passar das semanas, fui percebendo que não ia parar. Eu comecei a responder com negativas. Deixava claro que nunca ia acontecer nada. Mas não funcionava. Quando os comentários começavam eu ansiava para que uma amiga, a única pessoa da sala que tinha coragem de falar algo, falasse em alto e bom tom: isso é assédio. Novamente, éramos nós por nós mesmas. Mais ninguém, inclusive o meu superior, falava alguma coisa.

Enquanto tentava superar os meus problemas, tinha que ver os advogados da empresa observando as redes sociais da minha amiga, dentro da agência, falando sobre como as fotos delas eram melhores, pois ela mostrava mais o corpo. Em uma ocasião o advogado, que deveria "defender" os funcionários, não parava de olhar para a tatuagem na perna dela. Ele olhou incansavelmente e sentiu-se no direito de tocar em sua coxa, onde fica o desenho.

Agora vocês devem estar se perguntando: Por qual motivo ela está revelando essas histórias tão pessoais? 

E eu te respondo: Conto pois, mesmo sendo absurdo e me fazendo mal, eu comecei a relevar muitas dessas coisas por "estar acostumada" com elas.

Não se acomodem com situações horríveis. Seja em uma relação amorosa ou familiar, no ambiente de trabalho ou social não é normal você se sentir atacada, menosprezada ou inferior.

Você está passando por qualquer situação que te deprime ou te afeta? Então FALE COM ALGUÉM. Se for no trabalho, converse com o RH, o seu superior, sua família e amigos ou até mesmo um advogado. Caso seja em uma relação amorosa, novamente, recorra aos amigos e familiares. 

Se você realmente se sente mal em alguma situação, ou com alguma pessoa, posso te garantir que você não está sendo exagerada, maluca, "cobra", falsa ou lunática. O seu bem estar é muito importante. Pense em você em primeiro lugar.




(Caso não se sinta a vontade conversando com conhecidos, aconselho você a escrever os seus sentimentos, pois é uma atitude muito libertadora. Se quiser, também me mande um e-mail pra tarla@siteapaulista.com.br que eu vou receber, ler e te responder com muito carinho).

Nenhum comentário:

Postar um comentário