#Entrevista8: Artur Vieira prova que é possível ser gay e cristão


Cristão e apoiador do sexo somente após o casamento... Antes que eu termine o parágrafo, vocês devem estar se perguntando o porquê de o À Paulista ter entrevistado essa pessoa - "logo vocês, que amam falar de sexo?". O principal motivo é pelo fato de essas características estarem misturadas em uma pessoa que também é homossexual e crítico de pastores que pregam contra os gays em suas redes sociais e mídias de televisão, rádio, revistas e internet, como Silas Malafaia e Marco Feliciano.

O nome dele é Artur Vieira, o jovem, mineiro de Uberlândia que vive aqui na nossa querida São Paulo, criador do canal no YouTube 'De Volta Ao Reino' - um portal que instrui tantos outros homossexuais a se aceitarem e também não terem medo de seguir a palavra de Deus, porque a bíblia, em momento algum, repugna gays, lésbicas, transexuais, travestis e transgêneros.

"Não, a comunidade LGBT não vai pro inferno", afirma e reafirma, quantas vezes for preciso, Artur Vieira.

Tudo começou em 2014, quando Artur e um grupo de amigos lançou o canal como um ministério de comunicação, que, hoje, vai muito além da igreja, alcançando milhares de visualizações em suas redes sociais.

Como nem tudo são flores lindas e perfumadas, junto dessa visibilidade toda, ele, que hoje comanda a plataforma sozinho, recebe muitas críticas, tanto de cristãos que não o aceitam dentro da religião, como de homoafetivos que não acreditam ser possível ficar tanto tempo sem fazer sexo. 

Complicado, né? Por isso batemos um papinho com ele, confiram aqui:

À Paulista: Você sempre soube que é gay, desde criança. Houve um momento que você chegou para sua família e expôs isso, mesmo que eles também já soubessem? E como foi?

Artur Vieira: Sim, desde criança eu tinha ciência da minha sexualidade. Quando somos crianças não entendemos bem "o que somos", eu percebia que existiam os meninos, as meninas e eu. Tanto na minha escola como na minha rua, não haviam outras crianças como eu. Me sentia diferente, estranho. 
Aos 16 anos contei para meus pais que era gay. Sempre tivemos um relacionamento muito saudável como família.

AP: Sua base familiar é evangélica? Por isso, aos 17 anos, você tentou se converter de acordo com a igreja tradicional?

AV: Minha família sempre foi católica. Eu fui parar na igreja evangélica através de amigos.

AP: Por quanto tempo você passou por essa experiência de conversão do gay para o hétero? E quando foi que você falou: "não, para, eu sou gay e isso é natural de mim, não vai mudar"?

AV: Meu processo de tentativa de "cura Gay" na igreja Evangélica Tradicional durou em média uns cinco anos. Até que definitivamente um dia eu chutei o balde e me cansei, porque realmente não havia cura, nem nada. Eu tentei tudo o que a igreja Tradicional Protestante mandou eu tentar, mas a atração por meninos continuava ali. Eu não queria mais me enganar.

AP: Faz quanto tempo que você frequenta a igreja inclusiva e como foi sua chegada nela?

AV: Eu frequento a igreja inclusiva há pouco tempo, apenas três anos. Porém quando morava no Rio de Janeiro fui membro da Igreja Cristã de Ipanema, que não se intitula Igreja Inclusiva e sim uma Igreja Aceptiva que entende que Cristo não faz acepção de pessoas. É uma igreja que aceita e recebe os gays normalmente, assim como recebe os héteros. Aprendi muito com o pastor de lá, o grande teólogo Edson Fernando de Almeida. Só fui conhecer igreja inclusiva mesmo aqui em São Paulo.

AP: Se você estivesse em um debate com os políticos, representantes da bancada evangélica, pessoas que vivem na mídia, propagando discurso de ódio contra a sociedade LGBT, quais seriam suas respostas/argumentos para eles?

AV: Logicamente eu colocaria todos os meus pontos de vista, reflexão e pesquisas sobre a bíblia e argumentaria que as escrituras sagradas não condenam a homoafetividade. Porém, faria de uma forma bem diferente que vejo nos debates por aí, demonstraria amor. Jesus nos ensina isso, ensina que os filhos de Deus são reconhecidos pelo amor. Amor na maneira de falar e agir, não nestes debates que rolam tanta baixaria, que quando vejo não me parecem pessoas que seguem a Cristo dialogando.

AP: Mais uma polêmica que ronda sua vida é a questão de fazer sexo só depois do casamento. Explica um pouquinho o porquê essa escolha é a melhor para você.

AV: Foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida!!! Antes vivia de boca em boca, de cama em cama. Aprendi a lidar com a minha carência, e principalmente que sexo bom não é garantia de relacionamento saudável pra ninguém. Aprendi a esperar e confiar em Deus. Valorizar meu corpo e principalmente meu coração. Não estou em liquidação e muito menos disponível para qualquer pessoa.

AP: E muitas pessoas te atacam por causa dessa opção. Por que você acha que as pessoas não entendem esse estilo de vida?

AV: Não entendem porque nossa geração é a geração do tudo fácil. Aí aparece um gay na internet que fala de sexo só depois do casamento e não aceitam mesmo. Porém se soubessem os benefícios que isso acarreta para nosso coração... Mente tranquila e paz de espírito, seriam à favor.

AP: Além de tudo isso, você possui um canal no YouTube, Facebook e Instagram chamado ‘De Volta Ao Reino’. Por que você considera tão importante tomar a frente da causa e se tornar um porta-voz, um representante, para as pessoas que buscam um apoio, uma compreensão e tudo mais?

AV: Acredito que alguém precisa dar a cara para bater. Precisamos de Jovens que dizem NÃO! Tá na hora de acontecer uma mudança no meio LGBT. Uma mudança que vem de encontro com algo revolucionário que só Cristo é capaz de fazer em nossas vidas. E digo isso sem ser de uma forma taxativa, só é leve, simples e transformador.

AP: Qual é a sensação de receber mensagens de pessoas que, depois de assistirem seus vídeos, passaram a se aceitar com muito mais facilidade?

AV: Isso é algo que não tem preço. Saber que um vídeo meu ajudou aquela pessoa a se entender ou principalmente a entender e aceitar seu filho ou filha é algo que não tem preço!

AP: Como um mineiro de Uberlândia que agora mora na capital paulista: qual lugar de São Paulo é a sua cara e o que a cidade representa para você?

AV: O lugar de São Paulo que é minha cara é o Ibirapuera. Muito fácil me encontrar por lá, amo o parque, a pista de corrida então... Sou apaixonado por esportes, lá acaba se tornando meu lugar preferido. Sobre a segunda pergunta: São Paulo é cosmopolita, tem uma mistura cultural que eu acho o máximo, muito rica em artes. Tudo isso mexe muito comigo, além de diariamente fazer vários amigos novos, com pensamentos e historias diferentes, acho muito enriquecedor.


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