Atrás da barricada: Les Misérables em São Paulo


Um dos maiores musicais de todos os tempos, um símbolo de como a arte do teatro tem o poder de transcender até mesmo os ponteiros do relógio. É uma boa maneira de descrever Les Misérables, que atualmente está em cartaz no Teatro Renault, em São Paulo, mas que ainda assim parece pouco diante da grandiosidade da produção. O musical estreou em Março na Terra da Garoa e já levou milhares ao teatro com a promessa de uma apresentação inesquecível.

E é mesmo um espetáculo como poucos. Baseado na obra do autor Victor Hugo e com as letras em português adaptadas por Claudio Botelho (dono de versões brasileiras de vários musicais internacionais e salvador da pátria pra quem curte teatro musical por aqui, amém), todas as partes de Les Mis, do esquema de luzes ao talento inegável dos atores, contribuem para que a ida ao teatro seja uma experiência única. Desde o momento em que pisamos no saguão, é possível notar a expectativa flutuando entre os presentes. O À Paulista conferiu uma sessão de domingo, e podemos atestar que é um musical que atrai igualmente toda a família. Com temas como a visão de uma mãe solteira, machismo, luta por ideais, redenção e perdão, a produção continua tão atual quanto era em sua estreia e faz com que deixemos o teatro com pelo menos uma sementinha de ideia na cabeça. Tem como não amar? 



Na sala principal, um projetor deixa o nome da peça flutuando diante dos olhos, com a assinatura do autor logo abaixo, como se fosse um livro prestes a ser aberto.  O aviso da produção do teatro é o sinal de que o musical vai começar, e é possível sentir o público prendendo a respiração.

A primeira cena já transporta o público para o enredo. A versão brasileira de “Look Down” é tão impactante quanto a original, com os prisioneiros puxando o coro na forma de “Olhai, olhai...” enquanto gesticulam como se estivessem puxando um navio para o cais, quando na verdade estão puxando a atenção de quem assiste para o centro do palco.

Aqui a gente faz uma pausa pra falar que: Leo Wagner, que homão maravilhoso! Encarnando Jean Valjean, o protagonista da trama, o ator não mediu esforços para capturar a atenção do teatro inteiro. E conseguiu. Não menos impressionante foi a versão do inspetor Javert do ator Nando Pradho, um dos maiores nomes do teatro musical no Brasil. Ambos levaram a tensão e animosidade entre os personagens a outro nível, num perigoso jogo de gato e rato, e a nós só restou acompanhar, de boca aberta, o trabalho dos dois no palco.

A Fantine (aquela de “I Dreamed a Dream”, que aqui no Brasil virou “Eu Tive Um Sonho”), interpretada pela veterana Kacau Gomes, foi um espetáculo dentro do espetáculo. Durante a música mais conhecida de Les Misérables, Kacau faz o teatro suspirar enquanto canta debaixo de um único foco de luz branca, que reflete os longos cabelos loiros de Fantine e também as lágrimas não derramadas de quem assiste a performance.



Uma pausa rápida para reconhecer o trabalho do ensemble feminino MA-RA-VI-LHO-SO durante “Lindas Moças”, uma das músicas com a letra mais pesada (ficamos surpresos com isso, Botelho!) e que fala da vida das prostitutas da cidade. Elas deixam o teatro em transe, olhando por cima do ombro, maliciosas, sorrindo para quem está nas primeiras filas e enfeitiçando todo mundo. Sereias em terra firme.

O musical progride em um ritmo agradável, apresentando todos os personagens de forma concreta e natural, com destaque para o casal Thénardier, os salafrários que servem de alívio cômico para a peça mesmo durante a parte dura da revolução. Palmas para Ivan Parente e Andrezza Massei, que possuem um timing sensacional e fizeram todo mundo rir com um simples gesto ou expressão. A gente ama um bom par de cafajestes? Nesse caso, ama sim!

No segundo ato, muito mais sóbrio que o primeiro e com a sombra da revolução e suas consequências muito mais proeminentes, precisamos enaltecer (E MUITO) o trabalho da atriz Laura Lobo como Éponine, já que é dela um dos solos mais arrepiantes do musical, com “Só Pra Mim”. Afinal, quem nunca sofreu porque o crush não correspondeu, né mesmo? Só que no caso dela as apostas envolvem muito mais chuva, tiros e morte. Opa!



Também é impossível não elogiar até a morte (risos) a cena final da barricada. O jogo de luz aliado ao trabalho da orquestra manteve todo mundo na beirada da poltrona, com os nervos à flor da pele. 10/10 na escala de produção impecável. O solo “Tantas Mesas e Cadeiras” chega num momento de fragilidade, e a voz de Filipe Bragança como Marius Pontmercy durante essa música deixa tudo melhor... ou pior, dependendo do ponto de vista. 1000/10 na escala de sofrimento.

Por último, vale um destaque especial para o elenco infantil, principalmente para o ator Lorenzo Tarantelli, que mostrou habilidades tanto humorísticas quanto dramáticas na pele do pequeno Gavroche e deixou a gente apaixonada desde já.  

No geral, a única “estranheza” (se é que dá pra chamar assim) foi a mudança do icônico “24601” para “23623”. Mas tudo bem, Sr. Botelho, a gente entende!


Pra quem quer ir:

Les Misérables – O Musical
Datas: Até o fim de Julho/2017
Endereço: Teatro Renault - Avenida Brigadeiro Luis Antonio, 411 – Bela Vista
Ingressos: Podem ser adquiridos aqui ou diretamente na bilheteria do teatro (preços variam de R$50 a R$330)

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