Assédio sexual é sempre igual, só muda de endereço, de agressor e de vítima

Não importa se você está arrumada ou desarrumada, o homem que assedia vai fazer isso pelo simples fato de você ser mulher

Diariamente as mulheres são assediadas. Seja na rua, em sala de aula, shoppings, restaurantes, e até em seus locais de trabalho, como o caso que envolve a figurinista da Globo Susllem Tonani e o ator José Mayer, que há oito meses dispara elogios, cantadas e toques em partes íntimas da moça.

O caso não é novidade alguma para as mulheres desse Brasil - uma pesquisa divulgada pela ActionAid, uma organização internacional de combate à pobreza, em maio do ano passado, divulgou que 86% das mulheres brasileiras ouvidas já sofreram assédio em público. Esse número deve ser bem maior se contarmos os casos em que o assédio não foi em local com várias pessoas ou se falássemos com todas as mulheres do país.

Como não lembrar de Giulia Pereira, repórter do portal iG, que foi assediada pelo cantor Biel?

A situação é, ainda, tão precária, que um grupo imenso de jornalistas se uniram contra o assédio. Veja a página Jornalistas Contra o Assédio. 

Ouso me colocar como personagem desse texto, porque, assim como a figurinista, eu já passei por um caso parecido, dentre as inúmeras vezes em que fui assediada...

Por uma das grandes redações que já passei, fui perturbada por um fotógrafo que sempre fez comentários vulgares a meu respeito – não vou dizer que começou com elogios, porque já se iniciou mais grave do que só dizer que sou bonita.

Perdi as contas de quantas vezes ele me constrangeu, em pauta, dizendo às fontes ou personagens que éramos um casal – chegando, inclusive, a pegar na minha mão, para simular a forma como namorados andam. Eu não o respondia ou o desmentia, para o clima com meu colega de trabalho, meus entrevistados e meu local de trabalho, não ficarem pesados. Mas era o que deveria ser feito.

Certa vez, na redação, precisei ir à baia da fotografia para falar com outro colega fotógrafo. O assediador, no entanto, disse em voz alta, para todos que conseguissem ouvir, que eu estava muito bonita e por que não ia vestida daquele jeito (de vestido) quando saímos juntos para a pauta.

Minha reação foi não dar bola para o comentário e continuar discutindo a pauta com o fotógrafo que trabalhava comigo no dia. Porém, quando saía de lá, ele disse que eu estava toda metidinha desfilando pela redação...

Outro fotógrafo, que estava ali, falou que ele estava me constrangendo – o que estava mesmo – e o bonito teve a audácia de dizer que eu não estava constrangida, já que eu sou “sem vergonha”.

Fiquei tão abalada emocionalmente com a situação, que eu não conseguia mais ir até a baia da fotografia quando ele estava lá. Já cheguei a pedir para outra repórter ir lá entregar um papel com nomes de personagens que fizera com outro fotógrafo. Todos os dias eu torcia para abrir o e-mail do editor e não estar pautada com ele.

Depois de alguns outros casos, a situação virou uma bola de neve e cada vez mais difícil de ser controlada.

Com certo receio, contei o caso para o editor-executivo, depois de seis meses desse assédio mais grave. Eu estava desestruturada, não conseguia falar, gaguejei até – o medo se torna ainda maior quando todos os seus superiores são homens.

Depois de algumas conversas e na tentativa de solucionar o caso da melhor forma possível, o diretor de redação deixou o comando da situação em minhas mãos, perguntou-me se eu queria que o fotógrafo fosse mandado embora ou se eu podia continuar mantendo um relacionamento profissional com ele. Se eu optasse pela permanência dele lá, o próprio diretor faria de tudo para eu não ser mais pautada com ele.

Minha intenção não era demitir alguém, era só exigir aquilo que tenho por mínimo direito: respeito.

Só que isso nunca ia mudar, desconstruir uma pessoa machista é quase tão difícil quanto um homem dar à luz. Sabem o que o fotógrafo veio me falar depois do episódio? Que eu, como jornalista, devia tomar cuidado com as palavras que uso, porque o que ele fez não era assédio, que era, no máximo, um comentário machista de mau gosto.

A diferença entre ele e o José Mayer é que um só tem a si próprio, o outro foi cercado por pressão da Globo e de sua assessoria de imprensa para assumir que passou dos limites.

Enquanto isso, Susllem Tonani, eu e todas as outras mulheres precisamos ser fortes o suficiente para aguentar assédios e abusos sexuais diariamente.

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