Te amo, minha princesa


Ah, que noite maravilhosa. O termômetro marca cerca de 25ºC e o relógio bate 1h41. Hoje? É dia 29 de janeiro, domingo. Eu estou na Rua Aspicuelta, famosa da Vila Madalena, na Zona Oeste da selva de pedra. Acabei de sair de um churrasco no Jabaquara, na Zona Sul.
 
Meu irmão me liga uma, duas, três vezes, e eu não atendo, não vejo tocar.

“Olha o caralho do celular, porra!”, à 1h43 chega por mensagem.

Retornei a ligação.

“A bolsa da mãe estourou, vem embora”.

Desligo a ligação e começo tremer. Olho para a minha amiga e digo que minha irmã vai nascer, preciso voltar para casa correndo. Uma lágrima escorre do meu olho direito.

Sem pensar duas vezes, ela diz que eu não posso voltar dirigindo, muito menos sozinha, porque estou muito nervosa. Então, pega meu carro e vai comigo até Santo André, onde minha irmã nascerá.

Marginal Pinheiros livre, velocidade máxima aumentada para 90km/h pelo mais novo prefeito Dória, ufa, vou chegar rapidão no hospital.

Cheguei rapidão na Avenida dos Bandeirantes, mas né, reduzimos para 50km/h, estou tranquila de tomar mais multa.

Ok, finalmente estou na Via Anchieta e daqui é só sucesso. Mete o pé, miga! 

Enfim Avenida Pereira Barreto, em Santo André, estacionamos o carro e corremos para dentro do Hospital Brasil.

Mamãe já está no centro obstétrico. Eu estou assinando os papéis de internação e documentação para registro da Pietrinha – meu pai não fez isso porque foi para casa levar o outro carro.

“Dona Fernanda, vou pedir para você continuar depois, porque sua irmã já vai nascer, pode subir para assistir o parto”, disse o recepcionista do pronto-socorro.

Entro no centro obstétrico, visto as roupas que a enfermeira me deu por cima do meu mini short branco e meu cropped colorido. Fico aguardando na área de espera

Outra enfermeira finalmente me chama para entrar. Minha mãe já está deitada e sendo cortada – o parto é cesárea.

Sento-me ao lado de mainha, ela diz que estava preocupada, porque eu viria correndo e bateria o carro. Eu só acaricio sua cabeça, esperando a grande chegada da irmãzinha.

Minha deusa! O obstetra – o mesmo que fez o meu parto há 22 anos – puxou a cabecinha mais linda que já vi. “MÃE, A PIETRA NASCEU”, gritei, pontualmente às 3h57.

“Ai, socorro! Nasceu”, disse minha mãe.

Comecei a chorar. Minha maquiagem já borrada de suor começa derreter e manchar toda a máscara que estou usando.

A recém nascida demorou um pouquinho para fazer o mesmo, chegou quietinha. Após ser colocada de ponta cabeça, abriu o berreiro. Seu choro era a mais linda trilha sonora que o musical da minha vida podia tocar.

Após o procedimento de medir altura, peso e carimbo dos pezinhos, a neném finalmente veio ao meu colo, quando parou de chorar.

O anestesista pegou meu celular e tirou fotos nossas, as primeiras fotos da minha pequenina.

Mas algo não estava tão bem. A enfermeira me tirou às pressas da sala de cirurgia. Minha mãe estava perdendo muito sangue, mesmo. O líquido vermelho, que corria em minhas veias e da Pietra, ensopavam o chão do local.

Mainha foi levada à UTI, precisava ficar em observação, mas estava bem.

A Pietra então ficara o dia inteiro no berçário. E eu? O dia inteiro lá olhando-a através do vidro, chorando, querendo pegar, apertar, amassar.

Chegou segunda-feira, pego licença irmandade para ficar no hospital. Vejo minha irmã mamar, tomar banho, fazer examezinhos e mais lágrimas correm de meus olhos.

No relógio, 14h48, minha mãe teve alta da UTI, ufa! Saí correndo para lá, a ajudei tomar banho e agora estamos indo para o quarto. A Pietra logo sai do berçário e vem para nós. Que felicidade.

É tão bom poder pegá-la no colo, sentir seu cheirinho, enchê-la de beijos. Nunca senti algo tão forte assim.

Vocês sabem o que é olhar para alguém e lágrimas escorrerem involuntariamente? Não por tristeza, não por dor, por amor! Te amo, minha princesa.

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