Ressurreição das Trevas: A era das princesas e a rebelião feminina



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“Dá pra acreditar? Uma heroína! É bom para que minha filha tenha em quem se inspirar” é uma das frases que mais me chamam a atenção quando foco no que está passando na TV, uma série sobre uma nova heroína tentando salvar a cidade em que vive e, por extensão, o mundo. Tenho que rir da ironia do timing; na mesma data em que escuto essa frase, também fico sabendo sobre a (agora) famosa Escola de Princesas. Nome fofo até que você repara no conceito principal do lugar: basicamente moldar meninas de 4 a 15 anos a partir do “resgate” de valores éticos e morais. 


Nesse caso, a palavra “resgate” assume um papel muito mais perigoso do que o que está escrito na definição do dicionário. O resgate aqui é a ressurreição de uma época sombria para as mulheres. Bem-vindos a Idade Média... quer dizer, Idade Moderna... OPA, é a Idade Contemporânea essa que estamos vivendo então, se fizermos as contas direitinho... ISSO MESMO, basicamente nada mudou. E quem não enxerga a verdade por trás do uso da palavra “resgate” quando a situação é a mesma em muitos lugares, claramente não está prestando muita atenção.


O que acontece nesse caso é a doutrinação de meninas no estágio mais crítico e vulnerável da vida. É dizer que cor de rosa é de menina, que boas meninas usam vestidos e nunca dizem palavrão; servem as visitas perfeitamente e com um sorriso no rosto, felizes em sua submissão diante de uma autoridade masculina que detém todo o poder. Arcaico e assustador, para dizer o mínimo.


Enquanto algumas podem realmente querer esse tipo de vida, dizer que essa é a vontade de TODAS implica em uma inevitável segregação daquelas que na verdade não querem. Com a segregação, vem o preconceito com quem pensa diferente e quer coisas diferentes, que deságua em tensão e mais segregação. “Seja diferente”, mas dentro dos padrões pré-estabelecidos. Um dedo fora da linha, um pequeno desequilíbrio na corda bamba da sociedade e você é uma pária. Estranha. Incompreensível. Errada. “Seja o que nós achamos aceitável” parece mais apropriado.


E esse ciclo vicioso não começa com o surgimento da Escola de Princesas, não. Ele parece novo, mas é só uma nova roupagem para um problema que acompanha a figura feminina há muito tempo. No slogan, a frase “Educação para a Vida Real” soa como uma piada. Na vida real, quando você viaja com a sua amiga, te perguntam “Mas vocês vão sozinhas?”. Na vida real, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil e uma nova denúncia por violência contra a mulher chega as autoridades a cada sete. Isso quando elas 1. vão atrás de denunciar e 2. sobrevivem tempo suficiente para isso.  


Deveríamos saber que essa vontade de manter as pessoas dentro de um padrão, quando ditas com tanta convicção, transforma-se em armas. Por falta de uma, temos duas guerras mundiais para provar que nada de bom pode surgir de um cenário assim. Portanto, “Todo sonho de menina é tornar-se uma princesa” é uma generalização perigosa. Não, não é todo sonho de menina. Claro que algumas meninas querem ser princesas; outras querem ser médicas, ou astronautas, ou advogadas, ou... E é por esse “ou”, por essa oportunidade de escolha, que nós temos que lutar.  


Na última semana, a revista Billboard elegeu a Madonna (a antítese do pensamento semeado por instituições como a Escola de Princesas) como a Mulher do Ano; no Chile, o Escritório de Proteção de Direitos da Infância tem uma oficina de "desprincesamento", mais figuras públicas têm usado o destaque diante do público para empoderar jovens, falando sobre questões feministas, levantando bandeiras e fomentando debates e discussões. A cantora Beyoncé, a atriz Emma Watson, a rapper Karol Conka e a escritora Chimamanda Ngozi Adichie, autora do célebre discurso “Sejamos Todos Feministas” no TEDxEuston, são exemplos de mulheres que lutam contra essa mentalidade, seja na arte ou em participações em movimentos ativistas. A população feminina agradece, mesmo que a gente saiba que isso é a pontinha do iceberg na questão de igualdade de gêneros. Mas é por isso que ainda lutamos.

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