Manual de como vencer na vida (Ou porque você não deveria cair nessa)


Você já deve ter lido ou escutado milhares de teorias, dicas e conselhos de como vencer na vida. Alguns provavelmente foram ditos pela sua mãe ou seu pai, na tentativa de te encaminhar positivamente para a vida; já outros, você deve ter encontrado disponíveis em sites e livros escritos por "meninas e meninos do vale".


Eu confesso que também já me peguei lendo estes textos que prometiam mudar minha vida antes dos 30, mesmo ainda estando no auge dos 22. Alguns artigos praticamente querem te fazer acreditar que, após lê-los, você vai criar uma coragem descomunal para abrir mão de tudo e investir uns trocados em um negócio.

Eles oferecem um plano ideal, com muita romantização de pessoas workaholics, afinal a vida é:

Trabalhar

Pagar conta

Trabalhar mais um pouco

Não ligar para a família

Não se importar com a saúde

Tudo isso, claro, tem um propósito. Daqui alguns anos você poderá se sentar em uma bela poltrona de couro, colocar uma música ambiente, saborear o seu maravilhoso vinho de uma safra de 20 anos atrás, apreciar uma pintura famosa na parede e pensar: Ai, como eu venci na vida.

Eu não julgo quem tem essa ambição, aliás, não julgo ambição nenhuma. Como boa leonina que sou, amo competição e sempre desejo continuar lutando para conseguir o que quero, mas, às vezes, surgem algumas dúvidas na cabeça, como por exemplo:

Viver é só isso mesmo?

Vencer na vida é realmente isso que enfiam em nossa goela abaixo desde a infância?

Há alguns dias fui votar em minha ex-escola. Estudei na instituição da 5ª serie até o 3º ano do ensino médio. Aquelas paredes me viram mudar de uma pré-adolescente chata, que sofria um certo bullying (mas praticava também, é sempre bom lembrar dos erros), para uma pré-universitária cheia de desejos e amor pelo jornalismo.

Foi lá que aconteceu o meu primeiro beijo e as minhas paixonites. Também foi lá que encontrei amizades boas, algumas passageiras, outras engraçadas e uma, em especial, que dura até hoje.

Pouco nostálgica que sou, entrei no prédio já lembrando de tudo o que vivi e, quando cheguei a minha sessão, dei de cara com um ex-professor. Ele me olhou e, de primeira, falou meu nome muito empolgado.

Provavelmente tive aula com ele durante um ano só, não faz tanto tempo assim, mas minha memória não é das melhores. É o tipo de pessoa que eu nunca achei que me reconheceria na rua se me visse andando pela cidade. Ao contrário do que pensei, ele sabia meu nome, tirou um momento para dizer a minha mãe o quanto eu fui uma boa aluna (a matéria era história, a pessoa que vos escreve nasceu para ser de humanas) e disse uma frase que mudou aquele instante que tinha tudo para ser chato:

- Sempre vejo fotos suas viajando! Acompanho pelo seu facebook. Qual lugar mesmo você estava há uns meses?

- No Uruguai!

- Nossa. Que legal!!

Naquele segundo, mesmo estando há mais de um ano no mesmo trabalho, sem ter dinheiro para investir no "sonhado primeiro negócio", sem nem estar perto de largar tudo e viajar o mundo, eu tive uma epifania e percebi:

Venci na vida. Pelo menos do meu jeito.

Ser reconhecida pelas minhas viagens, o que eu julgo como uma das coisas mais importantes que o ser humano pode fazer para se conhecer e, claro, conhecer o próximo e outras culturas, fez com que até meus boletos e faturas do cartão de crédito valessem a pena.

Eu venci na vida naquele minuto. Depois perdi na vida no dia seguinte. Só lidei bem com a vida em outro dia e esse eterno looping vai continuar por muito tempo. ‘Vencer na vida’ é muito mais do que condição financeira, é, na verdade, ter prazer pelo que você e as outras pessoas te reconhecem.

Pode ser pelo estilo em que vive, sim, mas também pode ser pelas suas viagens, pelas suas tatuagens, pelo trabalho voluntário que realiza e até mesmo apenas por terminar bem mais um dia caótico e estressante.

Pensando positivamente, coisa que não faço muito, mas vou tentar agora, você está todo dia vencendo na vida e, de alguma maneira, as pequenas batalhas diárias valem mais a pena do que a tão sonhada "realização final", afinal, elas acontecem várias vezes, e não só uma. 


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