#Entrevista1 - Fabio Chap: putaria, política e muita arte


Quinta-feira. 19h30. Bar na Avenida Paulista. A descrição pode até parecer de um encontro, mas, na verdade, foram essas as coordenadas que a equipe do À Paulista seguiu para conversar com o escritor Fábio Chap, na última semana.

Sentados na calçada da mais paulista das avenidas, bebendo e, no caso dele, fumando, passamos mais de uma hora falando sobre o trabalho de uma pessoa que nasceu para ser um artista. 

No auge dos 29 anos, Chap é conhecido pelos seus textos que são publicados em plataformas online, como o Medium e o Textie, e em redes sociais, como o facebook. Nesta, ele escreve no próprio perfil e na fã-page pessoal, para quase 50 mil pessoas, e na página Quebrando o Tabu, que tem quase 6 milhões de curtidas. 

Chap sente que é um escritor desde a infância, quando já era melhor em redação do que nas matérias exatas, mas demorou muito tempo para assumir esta descrição. "A gente tem medo dessa palavra um pouco. Parece pomposo, né? Escritor". 

Formado em comunicação mercadológica, ele já teve uma banda de metal na adolescência, fez curtas-metragens, poemas e roteiros. Atualmente, se divide entre contos eróticos, que foram tema de seu primeiro livro, intitulado Tive um Sonho Pornô (compre aqui) e textos de cunho social e político.

Em todos os casos, ele sabe atingir o público como ninguém. Ao mesmo tempo que faz milhares de pessoas repensarem e desconstruírem ideias sociais, ele também consegue deixar os(as) leitores(as) suspirando, imaginando, desejando e gemendo. Os comentários não me deixam mentir.

É oficial: A arte está em Fábio Chap. E todo mundo agradece.

Leia a entrevista na integra:


À Paulista: Quando a escrita surgiu na sua vida?

Fábio Chap: Desde bem novo. Eu sempre fui ruim em matemática e bom em redação, acho que isso é um carma de humanas (risos), aí juntam os professores de matemática que não explicam nada e você toca o foda-se e assume que não entende a matéria, então vai escrever, vai para a história ou para as artes. Eu sempre curti muito mais essas matérias do que exatas. 

Enquanto estava no colégio, com 14 e 15 anos, eu comecei a escrever letras de música, eu tive uma banda de rock e metal, também tinha fotolog, onde colocava foto e uma legenda com poesia. Também usei muito o Orkut, colocava um monte de viagem no quem sou eu.

AP: Com a facilidade em humanas, após a escola você acabou fazendo publicidade? 

FC: É, mas eu não queria. Quando eu tinha 10 anos eu queria ir para a área de desenho, mas meu pai ficava em cima. Depois, aos 14/15, eu fui para a música e queria fazer faculdade nesta área.

Eu cheguei para o meu pai comunicando: vou fazer faculdade de música, não estou pedindo, estou comunicando. Ele viu que eu cheguei chegando e falou: "Beleza então, você vai sair da minha casa, porque aqui você não mora fazendo música". Ele não queria que eu fosse para arte de nenhum jeito. 

Só que só tinha faculdade de artes de manhã. Então eu teria que trabalhar de tarde ou a noite. E esse trabalho, eu com 17 ou 18 anos, teria que sustentar a casa, a faculdade, a minha comida e a porra toda, ficaria bem inviável. Aí eu falei: "Ah, o que tem no meio do caminho entre a arte e alguma coisa que ele não implique tanto?" Então fui fazer comunicação mercadológica, que é como se fosse publicidade. E fiz os quatro anos.

Hoje em dia eu acho que foi muito melhor eu ter feito esse curso do que letras ou música. Se eu tivesse feito esses cursos eu teria a técnica da coisa, mas não teria noção de como vender esse produto, como comercializar ele. Como eu não desisti da arte, continuei nela pela minha estratégia e cai na literatura, foi melhor eu ter feito um curso que me fez saber vender o meu trabalho.

AP: Chegou a trabalhar em agência?

FC: Sim, trabalhei como redator.

AP: Quando você começou a escrever você ainda trabalhava em agência? Teve essa dupla jornada? 

FC: Estava em agência ainda na época, mas eu ficava revezando. Eu ficava seis meses em uma agência, aí eu falava “não, agora vou viver da arte”, e ficava tipo três ou quatro meses escrevendo, mas eu tenho filha, né? O bicho pegava de conta e eu voltava para o escritório.
Até que nesse fluxo, em 2013, eu larguei de vez a agência. Eu pensei: "Se eu não dedicar pelo menos oito horas por dia nisso aqui que eu gosto, que é com o que eu me identifico como ser humano, não vai virar." A partir desse momento que eu decidi me dedicar, virou. 

AP: Por que existe tanto tabu para falar de sexo?

FC: Porque é um tipo de assunto que as pessoas têm como um “assunto de intimidade”. Eu resolvo isso na minha intimidade e ninguém fica sabendo. A gente está em uma era agora que as pessoas caem na internet, que uma pessoa escreve sobre sexo e isso vai para muito mais pessoas.

Antes você tinha nichos: literatura erótica, pintura erótica, você não via todo mundo falando de sexo, eram só especialistas, artistas e tal. E quanto mais gente começa a falar sobre esse tema, parece que quem é conservador, começa a ficar mais preocupado. É muita gente ao mesmo tempo falando de um tema que eles não querem que seja falado. 

Acho que o tabu está caindo bastante. Algumas pessoas acham que já pode ser uma coisa mais pública, como falar sobre, escrever sobre, não precisa ser sempre no ambiente do privado, cada um decide como vai ser. Se você quer expor seu tesão por literatura com pintura, profissionalmente ou amadoramente, é seu problema, mas quem é mais conservador vai travar. 

Para a mulher é muito mais difícil falar, nunca ninguém me chamou de promíscuo: “Ah, seu promíscuo, está escrevendo sobre sexo”. Ninguém pega um moleque de 11/12 anos vendo playboy na escola e fala “ah, safado sem vergonha”, ele está se descobrindo e tal, é um processo. Para a mulher está começando a rolar uma compreensão de que mesmo mais nova é também é tranquilo falar, principalmente mais velha.

AP: Você diz que é mais tranquilo, mas mesmo assim o Facebook ainda censura muitas das coisas que você posta... 

FC: É, isso, censura, mas é por conta de denúncia. Existe duas etapas: as pessoas que não gostam do meu tipo de trabalho com o sexo e com a sexualidade denunciam o conteúdo, e o Facebook, por ter um viés moralista vai lá e derruba. Sem denúncia, muito provavelmente, não cairia.  O Facebook é reflexo da sociedade conservadora em que a gente está.

AP: Teve algum momento em que decidiu escrever sobre sexo ou foi algo mais natural? 

FC: Sempre foi um assunto que eu pirei, desde moleque. Eu assistia aquele Ponto P, da Penélope, na MTV, com 12, 14 anos, depois Emmanuelle (risos). É um assunto que eu sempre me interessei muito, na adolescência eu li muito sobre e acho que esse interesse, primeiro na teoria, depois na prática, que me levou a pensar: se eu vivo uma sexualidade interessante, se estudei um pouco disso, li bastante sobre isso, porque não transformar em literatura também? 

Algumas coisas que eu ouvia, lia, vivia, que as pessoas me contavam no bar, eu comecei a transformar em literatura. Teve caso de e-mail que eu mandava em relacionamento e só troquei o nome de personagem e transformei em conto. Acontece isso. Por eu viver uma vida sexual livre, eu decidi começar a escrever sobre sexualidade livre também.

AP:  As manifestações de carinho dos leitores são a coisa mais gratificante do seu trabalho? 

FC: No começo era muito emocionante, em vários sentidos, a pessoa que tatuava meu poema, a pessoa que comentava um lance tipo ‘puta, bati a primeira vez lendo seu conto’ era e ainda é um lance bem foda. Onde ainda mais pega a emoção é quando a pessoa fala que pensava de uma maneira e mudou. 

Por exemplo, teve um caso de redução da maioridade penal, a pessoa pensava que queria vingança mesmo, falava 'bandido bom é bandido morto' e tal e lendo o que eu escrevia pensou ‘pô, não devia ser assim’. Esse tipo de coisa ainda me emociona. É foda.

Na parte da sexualidade, ver os comentários é uma sensação de missão cumprida e que parece que não vai deixar de ser cumprida tão cedo. Eu gosto muito de estar sempre em um tema, não sei quando eu vou lançar mais um livro de contos erótico, mas foi um experimento muito interessante. E, pelo que eu estou sentindo, foi um experimento que ainda vai deixar muita recompensa, para mim e para as pessoas que se permitirem aos contos e literatura.

AP: O que você sentiu quando viu a primeira tatuagem com os seus poemas? Ainda sente a mesma emoção ou acostuma? 

FC: Hoje já está perto de umas 70 e 80 tatuagens. Mas no começo, acho que até as três primeiras, eu me emocionei assim de lágrimas, de chorar mesmo. Eu já ouvi muita coisa em relação a querer trampar com arte. Na família, em casa, não querendo que eu fosse para a arte nem fodendo. 

Quando eu estava para lançar o livro uma pessoa muito importante veio me dizer: "Pô, fiquei sabendo que você vai lançar um livro, é sobre o que?" Aí eu falei que era sobre contos eróticos e a pessoa disse: "Não tinha outra coisa para escrever, não?"

Essa mesma pessoa, um ano antes, falou “Ó lá, agora enlouqueceu de vez, acha que é escritor”, então tendo essa memória dessas agressões, dessas ofensas, quando eu vi uma pessoa tatuando um poema meu na pele eu fiquei: "caralho.... se fudeeeeu." É tipo um chupa enorme. Foi algo muito emocionante.

AP: O que dá mais polêmica: escrever sobre política ou sobre sexo?

FC: Sendo homem eu não tenho dificuldade de escrever sobre sexo, dá muito mais polêmica para o meu lado escrever política. No caso de uma mulher teria polêmica dos dois lados. Para mim é muito mais embate e treta quando o tema é político.

AP: Você disponibilizou o ‘Tive um Sonho Pornô’ totalmente no Medium. Por que? 

FC: Foi uma campanha/posicionamento contra o que o Facebook faz. Eu escrevo contos sobre liberdade sexual e não consigo manter esse conteúdo lá e o Facebook, que é a minha principal ferramenta de divulgação. Se a minha principal ferramenta de divulgação derruba o meu principal tipo de trabalho eu vou deixar para lá?

A minha manifestação foi abrir o meu livro. Eu deixei ele aberto, as pessoas vão ler e, se gostarem do tipo de coisa que eu escrevo, podem comprar o livro. É isso. É a maneira como eu bato de frente para dizer: não vou ceder. Quando você escreve sobre liberdade você tem que ter postura.

AP: Liberar o livro fez crescer a procura por ele? 

FC: Fez. Vendeu mais. Mas acho que liberar o livro fez muitas pessoas que não conheciam comprar. Vai criando público e a galera vem junto, eles já repararam que é uma liberdade de verdade, não só um método egoísta de dinheiro, só explorar as pessoas porque sexo vende.

AP: Você já está escrevendo mais livros? Já tem algo pronto ou previsão de lançamento? E planos os próximos meses?

FC: Eu tenho livros prontos. Tem de poesia e de contos não eróticos prontos. O próximo é de contos não eróticos, seguindo a linha de textos do Quebrando o Tabu. Textos mais porradas, sócio-políticos. Será publicado no primeiro semestre do ano que vem.

AP: Onde você escreve e onde podemos encontrar o Fabio Chap?

FC: No meu Facebook perfil, meu Facebook página, na página Quebrando o Tabu e no Textie. Também escrevo para Twitter, Instagram, de vez em quando e faço algumas coisas no snap. Tenho um canal que estou começando agora, chamado Disco Voadora, que é no Medium.
Tem os roteiros que eu faço, freelas para publicidade e curtas-metragens. Vou lançar um curta no mês que vem, do texto ‘Tô com saudade dela’, que é um dos textos que mais bombaram. Ainda faço letra de música com uns brothers que têm banda e ainda vou lançar um lance de poesia narrada. 


Nossas perguntas de praxe:

AP: O que São Paulo representa para você?
FC: Representa muita coisa. Principalmente a Paulista e o centro. Parte da minha identidade como escritor tem muito a ver com São Paulo. Eu sou de Santo André, mas sou uma mistura de Paulistano com Andreense. Venho muito para cá, desde adolescente. Muito do que eu sou e das coisas que eu acredito tem muito a ver com são Paulo. 

AP: Qual lugar de São Paulo é a sua cara?
FC: A Paulista e a Augusta.


PROMOÇÃO: TIVE UM SONHO PORNÔ COM FABIO CHAP

 Começamos essa parte do texto com um: quem não teve, não é mesmo? hahaha.
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