Conta Outra – Tchaka Drag Queen: A Carreira de Rainha das Festas, o Ativismo e uma noite com Selton Mello (apenas na imaginação)


Quando recebi o convite para assumir a coluna Conta Outra, aqui no À Paulista, na hora pensei que queria algo diferente e, principalmente, entrevistar pessoas que tem a cara de São Paulo, seja ela famosa ou anônima, do gueto ou da elite. O que realmente importa aqui é a história de vida do entrevistado, extrair a essência de cada um deles e poder mostrar, para milhares de pessoas, algo diferente e gostoso, assim como esta cidade que não para nem por um segundo. 
Minha primeira entrevistada é uma das figuras mais conhecidas da noite paulistana e ganhou vida no Réveillon de 2000, quando o então advogado Valder Bastos veio morar na capital com amigos, no bairro da Barra Funda. Sem dinheiro para locar uma casa no litoral eles decidiram dar uma festa no próprio apartamento e um dos amigos teve uma missão peculiar: se “montar” para animar os convidados.

Com poucos recursos, pasta de dente branca nas pálpebras e muita alegria, nasceu Tchaka - A Rainha das Festas, nossa convidada desta semana da Conta Outra.

Fábio Bouças: Como surgiu e há quanto tempo existe a TCHAKA ?

TCHAKA: No Réveillon do ano 2000, logo que terminei a faculdade de direito feita na Universidade Brás Cubas, em Mogi das Cruzes, me mudei com alguns amigos para São Paulo para o bairro da Barra Funda. Apartamento grande e muita ferveção resolvemos não 'descer para o litoral' na virada de ano pois ficaria caro o aluguel de um apartamento de temporada. Nesse período, então, resolvemos que ficaríamos e daríamos uma festa e um de nós se 'montaria' e escolheram quem? Euzinha (risos).

Foram na Rua 25 de Março compraram tudo e ficaram mais ou menos quatro horas entre maquiagem (usamos até pasta de dente branca para fazer a pálpebra e produção). Ficou muito pobrinha e feia de doer os olhos e um dos meus amigos soltou: “nossa você está parecida com o TCHACA, do seriado 'Elo Perdido', e você sabe que apelido não é o que queremos e sim o que pega!

A Drag Queen TchaKa está na estrada faz 17 anos profissionalmente.

FB : Em diversas entrevistas concedidas à imprensa, você diz que já possui mais de 4000 eventos. Este número em 2016 chegará a 5000? Você sabe o número atual de festas?   

TCHAKA: A Drag Queen TchaKa cresceu quando comecei a trabalhar profissionalmente as várias agências de animações, telegramas animados, entretenimentos e eventos corporativos. Descobriram um novo potencial inovador, a soma do humor inteligente e uma produção impecável. Assim trabalhei por 22 agências nacionais de animadores.

Com o tempo e minha total dedicação, as clientes começaram a exigir a TchaKa e não apenas uma drag queen... fui fazer uma animação num chá de bebê na cidade Americana, interior de São Paulo, e, quando terminei, a cliente perguntou se tinha um 'site', disse que não, então ela me deu o site que até hoje tenho o domínio.

Muitas agências começaram a me ver como concorrência (detalhe eu só queria ser ator) e não me passavam mais trabalhos e o meu marido Carlito disse que qualquer eventualidade financeira 'seguraria as pontas' das contas! Aquele gesto foi libertador e comecei a meter as caras, comecei a pegar todo e qualquer tipo de evento, totalizando esse ano (2016) quase 5000 shows de humor em todo Brasil.

FB: Quem te batizou de Tchaka, a Rainha das Festas?

TCHAKA: Com minha popularidade em alta conheci o jornalista e organizador de diversas exposições em shoppings de São Paulo, Maurício Coutinho, que, em 2010, me convidou para participar de uma exposição no Shopping Light e, no último dia, me coroou como Drag Queen TchaKa, a Rainha das Festas de São Paulo. Na ocasião, quem me vestiu esse ano foi o estilista Robson Junior a peruca e maquiagem foi da Drag Queen Luhly Cow, quem me passou a faixa foi Roberto Mafra e coroa foi posta por Kaká Di Polly.

Depois, nos outros anos, Maurício Coutinho continuou me coroando como a Rainha das Festas e, como sou midiática, uso o título para certificar o prestígio perante a sociedade e clientes e dar mais visibilidade à todas as Drag Queens do Brasil que fazem um trabalho limpo, honesto e digno de levar arte de qualidade.

FB: Conta para a gente um momento especial da sua vida? Aquele que só de falar você já se emociona...

TCHAKA: Tenho momentos únicos que ficarão para sempre em minha memória e que vou dividir em tópicos: militância, business, amor de fã, companheirismo e amor de mãe.

Militância: Quando fui convidada para ser a apresentadora oficial da maior parada LGBTT do planeta, pela Associação APOLGBT de São Paulo. Foi um choro de uns três dias para cair a ficha;

Business: Quando fui convidada para fazer um evento corporativo para o dia da secretária no hotel 5 estrelas Meridien Rio de Janeiro, onde, além de me mimarem de luxo, me deram um dos mais altos cachês;

Amor de Fã: Tocou no interfone de casa um rapaz que tinha vindo do Rio de Janeiro por ter me visto no programa A Liga, na TV Band, e ter se apaixonado pela história da drag queen Tchaka. Ele tinha visto que morava na Rua Augusta sem saber o número veio perguntando desde à Avenida Paulista até chegar em casa. Ele chorava, tremia quando me viu e foi muito lindo cheio de ternura no olhar, amei;

Companheirismo: Do meu maridão, o chef de cozinha Carlito que me enche de orgulho e tesão. São várias histórias; só ele sabe as delícias e as agruras de ser o que sou;

Amor de mãe: Dona Branquinha quando me viu pela primeira vez me encheu de amor e disse que deveria fazer o que me faz feliz e se isso era o que eu queria, deveria fazer com honestidade e com a arte, foi libertador!


FB: Já ficou CHOCADA com alguma reação de fã?

TCHAKA: Sim!! Já fiquei maravilhada e chocada com tanto amor gratuito. Eu digo para todo mundo, meu primeiro fã, depois de Carlito, foi o Alan Junior. Ele me seguia nos lugares, me contratou por diversas vezes para festas em sua casa. Em cada estreia minha de espetáculo ele aparecia, por exemplo: a peça do querido Ronaldo Ciambrone ‘Miss Brasil Sou Eu’, no Teatro Brasileiro de Comédia, Alan me levava flores, bombons, fotografava o espetáculo, fazia montagens nas fotos, imprimia e me levava com mais flores e bombons. Foi me conquistando e hoje é um grande amigo.

Suzi Guerra e Miguel Ângelo também foram fãs que se tornaram amigos, confidentes leais que a vida me presenteou e até hoje me enchem de carinho e dão risadas de minhas palhaçadas mesmo tendo ouvido milhões de vezes as mesmas (risos).

FB: E a TCHAKA militante, sempre existiu ou aflorou em algum momento especial?

TCHAKA: A militância é nata em minha alma. Quando adolescente morava em Juazeiro, na Bahia, e estudava à tarde e teve um episódio que me marcou, literalmente. Fui espancada por 12 moleques que não permitiam que eu fosse afeminado. Tinha um amigo, o Salorrilton, que foi lá e bateu em todos eles (risos). Ali despertou meu espírito de luta para combater o racismo, machismo, violência doméstica e a homofobia. Quando fiz direito brigava lindamente com professores, alunos e o mundo (risos).

FB: Como é ser atualmente a apresentadora oficial da parada LGBT de São Paulo?

Drag Queen TchaKa, apresentadora oficial da parada LGBT de São Paulo, para muitas pessoas pode até ser visto só como glamour, mas também é, acima de todo o ego, frufrus, etc, visibilidade e esta é a causa.

Só para ter uma noção, durante o ano fizemos 13 reuniões para decidirmos o tema, qual linha seguirmos, quais discursos de enfrentamento e logo depois do convite feito pela diretoria da Associação APOLGBT – SP vieram os 'dedinhos' de cobrança e ameaças de todos os lados, mas a certeza que estou no caminho certo da história me dá tranquilidade para brincar com esse posto que jájá será de outra... e outra... e outra. E é assim que deve ser: sem se apegar ao efêmero e somar à nossa luta que é diária contra o homolesbotransfobia.

FB: A Tchaka já foi agredida verbalmente ou fisicamente em algum ato militante?

TCHAKA: Sim!! A Drag Queen Tchaka já foi agredida em um ato contra o Deputado Marco Feliciano, em 2013, na Av. Consolação, quando estava com Bill Santos, Bruna Maia, Gaby Amarantos e uma turma linda, indo para a Praça Rossevelt, onde teria show do cantor Crioulo. Na Consolação um grupo pró-Feliciano tentou invadir a manifestação e me agrediu com palavras e empurrões. Me enchi de uma energia que não sei de onde veio e juntos todos nós colocamos eles para correrem e eu no salto altíssimo (risos), mas enfim conseguimos.

Nas redes sociais sempre acontece nos 'in box' da vida: ameaças de espancamento e até ameaça de morte. Quando fui contratada convidada pela Prefeitura de São Paulo para inaugurar unidades de atendimentos para comunidade LGBT das periferias de Sampa, fui ameaçada por candidatos à vereadores, etc...

FB: É verdade que rola rivalidade entre drags na noite de São Paulo ou isso é mais especulação da mídia?

TCHAKA: Já ouvi falar nisso hahaha.... Quando trabalhava na 'noite de São Paulo' já sofri na pele com olhares, rejeição de diretores artísticos que nunca me escalavam por eu ser ‘a diferentona’ e não se enquadrar no senso comum da época, lá pelos anos 2005, mais ou menos.

Cansei daquilo tudo e fui criar possibilidades de continuar na cultura drag queen tão rejeitada nessa época. Ganhei a entrada e hoje sou uma drag queen que transita à noite e de dia observo; foi a melhor escolha que fiz na vida. Hoje sinto o prestigio quando vou as boates, saunas, bares gays de todo Brasil para dar pinta e me divertir um pouco, tenho portas abertas e comandas liberadas (risos).

FB: A Tchaka é sempre muito colorida, alegre e despojada. Mas já teve algum dia que por algum motivo alguém apagou ou tentou apagar este colorido?

TCHAKA: A Tchaka não senti dor, fome, cansaço, sono, nadinha que possa interferir no andamento do projeto, sonho, trabalho, job, love (risos), então quando acontece algum tipo de estranhamento por parte da cliente ou de algum convidado neutralizo com postura enérgica e profissional. Não aceito ser explorada por isso me resguardo com contrato certinho de tudo que deve acontecer nos eventos.

FB: Tchaka já ficou com alguma celebridade? Hummmmm, sim é uma revelação... queremos saber;

TCHAKA: (Risos) vamos lá, quero deixar claro de uma vez por todas: ter ficado e transado com o ator Selton Melo não significa nada... até porque foi só nos meus sonhos (risos).

A TchaKa ‘nunca’, eu disse nunca, ficou com ninguém, nem anônimo nem famoso, porque, por escolha minha, não a uso para fiz sexuais, sou BV (Boca Virgem). (risos) Mas se a pergunta fosse você ficaria com algum famoso a resposta seria???... (suspense) hahaha

CONTA OUTRA

FB: Tchaka, queremos saber algo sobre você que nunca foi revelado em nenhuma entrevista à imprensa. Pode ser pessoal, profissional, como militante, enfim, essa é a cereja do nosso bolo.

Em primeira mão: O ator Valder Bastos vai se casar oficialmente com o chefe de Cozinha Carlito em 2017! <3 Profissionalmente: Vou para o nordeste gravar meu primeiro clipe, a convite do produtor e Dj Fabinho Vieira. Militância: Continuarei na luta por um mundo mais divertido e colorido para todas e todos.

Chef Carlitos e TchaKa 
E como cerejinha do bolo... Pela primeira vez na história do Grupo Satyros, a drag queen Tchaka vai integrar o elenco da Semana Satyrianas, ao lado da Drag Queen Malonna e do artista plástico Miguel Ângelo vamos fazer a primeira turma de Drag Queen debutantes, com colação de grau e tudo (risos), vai ser histórico!




Para contatar a Tchaka: 



WhatsApp: (11) 991327750

Instagram: @TchaKaDragQueen  



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A coluna 'Conta Outra' é escrita por Fabio Bouças!


Assessor de Imprensa, fundador da FB Imprensa e um apaixonado pela comunicação. Contato e sugestões: fabio@fbimprensa.com.br. Redes sociais: Facebook Instagram.

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